sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

E o pensamento, o que tem criado?

Numa das passagens dos Evangelhos mais desafiadoras à nossa pequenez espiritual, Mateus nos dá a conhecer o ensino de Jesus a respeito da milenar proibição ao adultério contida no Decálogo judaico:

Ouvistes o que foi dito: "Não adulterarás". Eu, porém, vos digo que todo aquele que olha uma mulher para desejá-la, já adulterou com ela em seu coração. (Mt 5, 27 e 28, tradução de Haroldo Dutra Dias)

Se o domínio sobre as próprias ações - externas, visíveis e passíveis do julgamento do outro - já é um grande desafio para muitos de nós, que dizer da disciplina do pensamento? Essa esfera de ação interior que normalmente encaramos como só nossa, como o espaço mais íntimo e pessoal de que dispomos para sermos nós mesmos?

Se há uma parcela da Verdade nessa forma de enxergar as coisas, ela está no fato de que o pensamento realmente revela sem erro aquilo que somos. Sem máscaras, sem pudores ou maquiagens. O erro, porém, começa na suposição de que ela seja realmente "íntima e pessoal".

Aquilo em que pensamos nos põe sempre em determinada zona mental, compartilhada por milhões de outros seres espirituais, irmãos na jornada de aprimoramento de si. Esses pensamentos, somados, entram em ressonância uns com os outros, potencializando efeitos, frequentemente negativos, e aprisionando o Espírito, quando ele não tem o hábito de cultivar a própria Vontade no terreno da Verdade.

Porém, o efeito só costuma ser negativo, inferior, materializado porque assim também costumam ser os nossos pensamentos. Onde colocamos o pensamento, aí se nos desenvolverá a própria vida, explicará o Instrutor Gúbio a André Luiz, numa das obras-primas da psicografia de Chico Xavier, Libertação.

Por isso mesmo, o Espírito que se esforça sinceramente por transformar o pensamento característico que traz, e esse  não é um esforço pequeno para nenhum de nós, conta também com o mesmo fenômeno de ressonância mental a seu favor. 

Nesse caso, porém, é com os pensamentos superiores que a sua mente vibrará. E as vibrações do Alto, ao contrário daquelas a que estamos mais condicionados, alimentam o Espírito de Esperança, uma Esperança Verdadeira e Progressiva que nos impulsiona para o Caminho da Verdade!

Manter-se sob a influência desse Impulso Superior é um desafio ainda maior, diante da nossa inconstância e do pensamento viciado em certas emoções doentias que ainda carregamos. E aí se faz necessário, ainda e sempre, o desenvolvimento de um "pensamento reflexivo, criando um movimento mental que assegure ao Espírito a capacidade de averiguar como se encontra seu pensamento e qual é a força que a Vontade exerce sobre ele", como propõe a Equipe Eurípedes Barsanulfo na obra mais recente ligada ao trabalho da Evangelização de Espíritos, A Libertação do Espírito.

Temos que aprender a refletir diariamente sobre o que o pensamento tem criado. De forma a não nos iludirmos com o brilho aparente de certas criações mentais, nem nos conformarmos com a estreiteza cinzenta de horizontes em que nossa mente às vezes estaciona e se demora por longos períodos... Assim, seremos pouco a pouco mais capazes de identificar com clareza o que está por trás de nossos pensamentos e a que eles têm dado origem. Pautando-nos mais e mais no exemplo incondicional dAquele que, Antes de Criar, amou com Infinito Amor a Criação...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Que Brilhe a Luz da Vida pela Arte!

É tempo de transição. Antes de tudo, para nós, Espíritos que tivemos a renovada oportunidade de nascer na Terra para dar continuidade ao trabalho milenar de educação de si. Depois de tanto tempo e tantas chances desperdiçadas, a Providência decidiu dar um "empurrãozinho" no processo. Permitiu que bilhões de Espíritos dos mais variados graus de auto-consciência e das  mais variadas estirpes compartilhassem juntos a experiência terrena.

Assim, pela inédita diversidade de caracteres, tendências, hábitos e gostos, não só coexistindo, como sendo quase coagidos a manter contato uns com os outros, nos vemos diante de um enorme desafio espiritual: seguir em frente no propósito de nos alinhar com a Verdade, mas sem perder de vista a profunda falta de propósitos espirituais que assola a maior parte daqueles que hoje habitam a Terra.

O que Deus propõe ao nos colocar diante dessa situação? Ele nos mostra o caos como quem oferece o campo selvagem para o agricultor, dizendo: "Aprimora tuas habilidades, direciona a tua disposição para o trabalho e terás a oportunidade de ceifar, capinar, arar e semear não mais para as necessidades do corpo, mas da alma. Trabalharás de agora em diante no Bem Verdadeiro, plantando no hoje para a Eternidade."

O campo inculto é a massa de Espíritos absolutamente alheios aos princípios mais elementares da Verdade que hoje, entre muitos tropeços, nós temos nos esforçado para tornar viva em nossas vidas. E o trabalho que Deus nos oferece é o da lapidação diária das arestas rudes que trazemos, de forma a nos tornarmos aptos a refletir, minimamente que seja, o Brilho da Verdade e a trazer um pouco de Luz para os que teimam em fechar os olhos para Ela.

É essa Luz que trabalhos como o que o Grupo Arte Nascente (GAN) realiza há 22 anos tem ajudado a trazer para a Terra. A Luz da compreensão de si, da elevação do pensamento e do desabrochar do sentimento. Luz que lança sobre o valor da Vida uma percepção mais ampla e profunda. Que já ajudou tantos Espíritos a reencontrarem os Propósitos Superiores da existência. E que agora está prestes a dar mais um passo na jornada a que se propôs. Certamente, sob as bênçãos do Senhor!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ele nasceu para Amar. E você?

Cada Espírito que vem a este mundo tem um propósito específico. Não falo simplesmente da necessidade de "expiação" e "melhoramento progressivo" que se aponta em O Livro dos Espíritos, questão 167. Se é certo que todos os que habitamos a Terra voltamos a ela porque precisávamos expiar faltas e nos melhorar, não podemos nos contentar com essa certeza. O aproveitamento pleno dessa oportunidade na carne pede mais de nós.

Quando Santo Agostinho, respondendo à pergunta 919 do livro-base, nos remete ao clássico preceito grego conhece-te a ti mesmo, ele não está apenas demonstrando erudição, nem deduzindo obviedades espirituais. Ele está nos chamando a atenção para a chave mais segura de que dispõe o Espírito encarnado para cumprir seu propósito específico neste retorno ao mundo material.

É que antes de vir, nós planejamos. Escolhemos, com maior ou menor interferência dos Bons Espíritos, quais os pontos mais urgentes a serem trabalhados dentro da vasta anterioridade composta pelos quadros de memória e pelas referências energéticas que acumulamos ao longo dos milênios*. Determinamos sexo, família, local de nascimento, filiação religiosa, área de atuação profissional, possíveis reencontros com Espíritos afinizados pelo amor e também pela dor...

Reencarnamos dentro de um planejamento feito sob medida para que tenhamos de lidar frequentemente com os sentimentos doentes. Para que, nos deparando com eles, tenhamos a oportunidade reiterada de tratá-los, de reorganizar energeticamente o perispírito e, então, partir para outros passos na jornada espiritual.

Porém, se eu não me conheço, tudo se torna mais difícil. Vêm as ilusões, os velhos vícios, os relacionamentos doentios... E, se eu não reflito sistematicamente sobre mim mesmo, como Espírito que está em processo de reparação específica de determinados erros do passado, a tendência é a de ficar desnorteado quando a luta pede mais esforço, mais disposição, mais vontade de superação.

Se eu me dedico seriamente a entender o que vim fazer aqui, ganho em objetividade na hora das escolhas, em serenidade diante da prova e em fortaleza espiritual para superar obstáculos. E, nesse processo, a despeito das quedas que invariavelmente surgirão, poderei galgar com cada vez mais decisão o caminho da Vida Eterna, a vida do Espírito que já superou o ego e a ilusão material.

Poderei, como um dia Jesus, ser um Mensageiro do Pai que desce à matéria não mais para ajustar-se com a própria consciência, mas para ajudar outras almas a despertarem as suas para a Verdade. Poderei ser alguém simplesmente Nascido para Amar, como propõe esta belíssima composição do Cancioneiro Espírita 1, que celebra com poesia inspirada e melodia encantadora o nascimento do Cristo!



* Para compreender melhor esse processo, sugiro O Que É Evangelização de Espíritos, capítulo "O Entendimento do Ser Espiritual", páginas 49 e seguintes. Autoria da Equipe Eurípedes Barsanulfo, pela médium Alzira Bessa França Amui.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Vamos Semear um Ano Novo?

Nesse mês de dezembro tivemos a abençoada oportunidade de conduzir dois estudos sobre a Parábola do Semeador em Fortaleza. A primeira, na Mocidade Espírita Paulo e Estevão da Piedade, que por tantos anos nos acolheu, como jovem e trabalhador, e ainda hoje abriga afetuosamente quase metade do Espírito de Arte. A segunda, no Lar Espírita Chico Xavier, no Bom Jardim, a casa que, esperamos, venha a nos acolher quando chegar a hora do retorno à terra em que escolhemos renascer.

A conhecida lição do Rabi nos convida, como sempre, à reflexão. Mais do que isso, ela nos convoca a lançar um novo olhar sobre nós mesmos a partir de uma percepção mais apurada sobre a Natureza e alguns de seus infindáveis exemplos para o Espírito em trânsito sobre a Terra.

Que terreno temos sido nós? - é a pergunta que ecoa nos nossos ouvidos na voz amorosa, mas desacomodadora, do Mestre. Teremos sido daqueles que vivem tão imersos no cotidiano terreno que preferem fazer ouvido de mercador ao Chamado milenar da Verdade - ou, na linguagem parabólica, o terreno da estrada, do caminho, ainda absolutamente despreparado para receber a Semente?

Teremos permanecido entre os que recebem entusiasmados a Boa Nova para, no momento seguinte, voltar à "normalidade" da ilusão terrena, com seus cuidados, suas facilidades e conveniências sociais - ou, nos dizeres do Cristo, o terreno pedregoso, carente de profundidade, de experiências no Bem capazes de serem acionadas, de ressoarem ao contato com a Verdade?

Talvez já possamos ser contados em meio aos que compreendem a necessidade da renovação íntima, que entendem a essencialidade de se caminhar no Bem para se chegar à Verdade, mas que ainda têm tantos vícios, tantas enfermidades acumuladas na própria alma, que vêem a vontade de mudar frequentemente abafada pelas construções equivocadas feitas ao longo dos milênios - ou, na expressão do Senhor, o terreno espinhoso, que sufoca sistematicamente a planta que tenta germinar.

O terreno fértil é aquele em que a Eterna Mensagem produz abundantemente frutos de Transformação Espiritual, Renovação do Pensamento, Edificação do Sentimento, Fortalecimento da Vontade e de Desprendimento do ego em prol do Bem de todos... Bom, é a nossa meta! E seria um tanto pretensioso aquele que já se julgasse um terreno realmente fértil, habitando um mundo próprio para Espíritos em reedificação interior como é a nossa Terra.

Em todo caso, se a Perfeição é para daqui a muitos milhares de milênios, a decisão de trilhar o Caminho da Verdade é para, no mínimo, dois mil anos atrás... Portanto, como propõe esta belíssima composição espírita de Ana Maria Soares Pereira e Moacyr Camargo, comecemos a Semear agora e os Frutos do Bem virão irremediavelmente e num futuro bem próximo! Feliz Ano Novo com o Cristo de Deus sempre à nossa frente!



PS: Confira a letra da música aqui.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Pedro e o desafio de renascer em Cristo...

Nada mais cristão, na profundidade da expressão, do que pensar no nascimento de Jesus em nós. Nada mais espírita, na essência da proposta, do que meditar sobre a necessidade constante e crescente de renascermos em Cristo.

E foi essa mesma a reflexão que nos inspirou a obra Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo, que líamos hoje pela manhã, assinada por ninguém mais, ninguém menos, que Joseph Ratzinger, Sua Santidade, o papa Bento XVI, atual líder da Igreja Católica Romana.

Ao dissertar sobre Pedro, o autor fala sobre o caráter extremamente humano, comum a todos nós, da personalidade do notável líder dos primeiros cristãos. Um pescador simples que um dia exercia o ofício corriqueiro, quando recebeu o chamado da Verdade: Não tenha medo! De hoje em diante, serás um pescador de homens!

A esse respeito, pondera Bento XVI: "(Pedro) Aceita o convite surpreendente a envolver-se nesta grande aventura: é generoso, reconhece os seus limites, mas acredita naquele que o chama e segue o sonho do seu coração. Diz que sim (...) e converte-se num discípulo de Jesus".

Mas entre aceitar o chamado do Rabi e permanecer nele, sabemos muito bem, pode haver um abismo. Um abismo preenchido pela nossa falta de fé, pela nossa falta de construções íntimas no Bem e pela nossa absoluta falta de hábito no exercício regular da Virtude. Falta tanto, que o abismo se instala quase com a mesma espontaneidade com que a alegria de seguir Jesus nos havia preenchido.

E então? Então vem a hora de enfrentar face a face nossa pequenez. De encarar sem máscaras, nem pudores, o nosso pensamento viciado na ilusão, nosso sentimento condicionado aos ditames do ego e nossa vontade profundamente rasa.

É hora de lidar com nossa pretensão, com a audácia que não raras vezes nos leva a julgarmo-nos aptos a aconselhar a própria Verdade sobre como ela deveria ser. Exatamente como o fez, a certa altura, o próprio Pedro ao, acredite, repreender Jesus! Dizia o Mestre que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria.

O pescador de homens, por sua vez, "escandaliza-se e protesta", nos dizeres de Bento XVI, com o anúncio do Calvário Redentor, chama o Cristo para conversar reservadamente e pretende aconselhá-lo a ponderar melhor sobre o tema, talvez a propor algum "jeitinho" mais cômodo de resolver a questão... A resposta do Messias não poderia ser mais contundente: Retira-te de diante de mim, Satanás; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens.

Compreendendo novamente, e com maior profundidade, o que significa se tornar um discípulo de Jesus, não sem melindre, nem contrariedade, Pedro reassume o compromisso anteriormente selado e nos lega mais um exemplo de empenho na edificação íntima da humildade e de perseverança na fé.

Exemplo que, em nossa modesta avaliação, jamais ganhou forma tão expressiva, contundente e comovente quanto na inspirada composição de Gladston Lage e Tim que leva o nome do apóstolo e pode ser vista abaixo. Uma canção que, se não arrebata a alma propriamente aos céus, arrasta-a irresistivelmente ao Caminho por meio do qual se pode chegar à Vida plena: o da entrega total do Espírito ao serviço com o Cristo, para além de todo o personalismo e de todo o interesse próprio, com a Verdade e pelo Bem de todos.