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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

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A outra experiência espírita de Machado de Assis

Hão de lembrar-se da minha aventura espírita, e da promessa que fiz, de iniciar-me na nova igreja. Vão ver agora o que me aconteceu.


Assim começa a crônica de Machado de Assis publicada no dia 11 de outubro de 1885, na Gazeta de Notícias. Exatamente uma semana após uma das mais fantásticas crônicas já escritas em língua portuguesa, na qual o Bruxo versava sobre o mesmo tema. Como nem ele era perfeito, este segundo texto não guarda o mesmo brilho do primeiro. É engenhoso, bem escrito, machadianamente irônico, mas, é preciso reconhecer, deixa um pouco a desejar em relação ao primeiro, que foi um dos mais acessados de todos os tempos neste Portal.

Mesmo assim, resolvemos colocá-lo aqui também. Vai propiciar um bom momento de leitura aos apaixonados pela pena de Machado. E vai mostrar aos interessados pela temática espírita, ainda e sempre, mais um exemplo de como essa proposta de compreensão da realidade influenciou a cultura brasileira, ainda em fins do século XIX. É clicar abaixo e aproveitar!

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/07/contedo-extra_06.html

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Idéias

O diabo espírita

Em uma postagem anterior, mostramos um material ímpar de Machado de Assis falando algo sobre o Espiritismo. O impulso inicial de qualquer bom espírita é repudiar o insulto que nos é, anacrônica e repetidamente, dirigido. Mas, não! Não façamos isso! Analisemos, que esse insulto não é um qualquer.


Quando os que nos são contra vêm com essa de que somos do demônio, há uma verdade nessa assertiva que deveríamos aceitar. Allan Kardec ousou utilizar-se de uma linguagem eminentemente diabólica para tratar das coisas de Deus. Ele não aceitou que as verdades ditadas pelos Espíritos fossem encaradas como dogmas de sacerdotes em êxtase. Colocou as revelações mediúnicas sob a prova da lógica e do consenso. Utilizou-se, portanto, de elementos de filosofia e de ciência.

Para atestar a fé, portanto, ele começou colocando a prova os fenômenos da religião. Ele começou duvidando! Os filósofos sempre foram tidos como orgulhosos pelos homens de fé. Porque enquanto estes procuravam sua força em Deus, aqueles buscavam em si mesmos.

O que é ser demoníaco senão querer ser deus? Porque, dentro de um sistema monoteísta, um só deus pode haver, e qualquer outro que pretenda fazer as vezes de deus, não pode ser outra coisa que não seu oposto. Deverá ser tachado de diabo, já que gerou discórdia onde só deveria haver harmonia, ainda que imposta.

No discurso espírita há as duas formas de se relacionar com Deus: a da concórdia e a da discórdia. Quando, fragilizados, damos nossa cara a tapa e nos entregamos à prece, estamos agindo dentro de uma perfeita via religiosa. Quando, fortalecidos, tomamos a responsabilidade de nossos atos, inclusive do passado remoto e invisível, as reencarnações, somos deuses em busca da reconstrução de nossas vidas. Nossa discórdia, todavia, é uma que objetiva uma melhor concórdia com o que há de divino no mundo. Trabalhar para assumir nossa divindade não é querer destronar Deus, mas querer ser ao lado dele.

A psicologia não fez outra coisa senão deixar o demônio que habita em nosso peito falar. Ela também nos é uma ciência afim. A diferença é que permitimos que outros demônios que não os nossos se manifestem em nosso peito, e isso é caridade.

Permitir que o amor que tenho em mim possa abraçar o ódio que há no outro. Mais do que isso, acolher o ódio de um outro qualquer em meu corpo para que o amor que me habita possa aliviá-lo é o sublime de uma relação mediúnica eminentemente cristã.

Enquanto todos os exorcistas consideravam o demônio como um inimigo merecedor da danação perpétua, Kardec, iluminado pelos preceitos espíritas, alertava: “Por vezes acontece mesmo que a obsessão, quando simples, seja uma tarefa imposta ao obsedado, que deve trabalhar para melhorar o obsessor, como um pai a um filho vicioso”*.

*KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos, Quinto Ano, 1862/ traduzida por Júlio Abreu Filho. p. 381. Sobradinho, DF: Edicel, 2003.

Allan Denizard

sábado, 6 de setembro de 2008

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Machado de Assis visita a FEB

Versión en Español

Quem diria que o maior escritor brasileiro de
todos os tempos já andou se engraçando pro lado da Federação Espírita Brasileira...? O país era ainda Império, o Rio de Janeiro, a capital nacional, e a FEB mal abrira as portas. Em crônica publicada dia 05 de outubro de 1885 na Gazeta de Notícias, a mesma que viria a receber artigos espíritas de Bezerra alguns anos mais tarde, Machado atrai os leitores com a manchete: “Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo”.

Mas, logo a seguir, vem a advertência aos que aguardaram um relato corriqueiro sobre a visita a uma instituição espírita: "Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa."

Se já ninguém esperava por uma visita de Machado à FEB, que dizer de uma visita espiritual? Pois é isso mesmo o que ele relata dali por diante! Óbvio, vale destacar, que não se trata apenas de um relato. Como toda boa crônica machadiana, o texto é construído com base na figura de linguagem mais bem explorada de sua obra: a ironia. Acompanhe no link abaixo o texto completo
, indicação preciosa do ator, diretor, pesquisador literário e trabalhador espírita Gláucio Cardoso. Quem não ler à espera de uma profissão de fé espírita vai se divertir com as tiradas do autor, que elabora um final surpeendente para a trama! Confira:

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/08/l-l.html

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Conteúdo Extra

Crônica publicada na Gazeta de Notícias, por Machado de Assis, 11 de outubro de 1885

Hão de lembrar-se da minha aventura espírita, e da promessa que fiz, de iniciar-me na nova igreja. Vão ver agora o que me aconteceu.

Fui iniciado quinta-feira, às nove horas da noite, e não conto nada do que se passou, porque jurei calá-lo, por todos os séculos dos séculos. Uma vez admitido no grêmio, preparei as malas para ir estabelecer-me em Santo Antônio de Pádua.

Claro era o meu plano. Metia-me na vila, deixava-me inspirar por potências invisíveis, predizia as coisas mais joviais ou mais melancólicas deste e do outro mundo, reunia gente, e fundava uma igreja filial. Antes de seis meses podíamos
ter ali um bom contingente.

Vejam, porém, o que me sucedeu. Era hoje que devia abalar daqui. Tudo estava pronto, malas, alma e algibeiras, quando li o código de posturas da Câmara Municipal de Santo Antônio de Pádua, que está sujeito à aprovação da Assembléia Provincial do Rio de Janeiro. Nesse código leio este ominoso artigo, o art. 113:

"Fica proibido fingir-se inspirado por potências invisíveis, ou predizer
coisas tristes ou alegres".

Caiu-me a alma aos pés. Daí a alguns minutos reli o artigo, para ver se me não enganara. Dei-o a ler ao meu criado e a dois vizinhos; todos eles leram a mesma coisa, como este acréscimo, que me escapou, que o infrator pagará de multa 50$ e terá oito dias de prisão.

Não me digam que o artigo apenas veda a simulação. Os fiscais de Santo Antônio de Pádua não podem saber quando é que a gente finge, ou é deveras inspirado. Jeremias, que lá fosse, e o seu secretário Baruch podiam dizer pérolas; iriam ambos parar à cadela porque o art. 113 não explica por onde é que se manifesta a simulação.

Desfiz tudo, as malas, a alma e as algibeiras. Peguei em mim e atirei-me à rede, com o famoso código na mão, resolvido a achar-lhe algum ponto em que lhe pegasse. Não achei nada. Ao contrário, todas as suas disposições mostram espírito precavido, delicado e justo; ao menos, é o que imagino, porque ao cabo de cinco minutos dormia a sono solto.

Acordei agora mesmo para ir jantar. Podia dizer-lhes ainda alguma coisa, mas não tenho alma para nada. Lá se foi todo o meu plano! Bárbaro código! Torturas do diabo! Aqui na Corte, a gente pode dizer, por meio de cartas de jogar, uma porção de coisas alegres ou tristes, e ainda em cima recebe dois mil-réis, ou cinco, se a notícia é excelente e a pessoa é graúda, e ninguém vai para a cadeia; ao passo que ali em uma simples vila do interior...

domingo, 1 de junho de 2008

Versión en Español

La experiencia espírita de Machado de Assis

Quién diría que el mayor escritor brasileño de todos los tiempos ya anduvo em la Federación Espírita Brasileña...? El Brasil era aún Imperio, Rio de Janeiro, la capital nacional, y la FEB apenas hubo abierto las puertas. En crónica publicada día 05 de octubre de 1885 en la Gazeta de Noticias, la misma que vendría a recibir artículos espíritas de Bezerra de Menezes algunos años más tarde, Assis atrae los lectores con el título: "Non adivinan los lectores donde estuve viernes. Allá va: estuve en la sala de la Federación Espírita Brasileña, donde oí la conferencia que hizo el Sr. M. F. Figueira sobre el espiritismo".

Pero, luego a continuación, viene la advertencia a los que aguardaron un relato común sobre la visita a una institución espírita: "Sé que esto, que es una novedad para los lectores, no lo es menos para propia Federación, que me no vio, ni me invitó; pero fue esto aunque me convirtió a la doctrina, fue este caso inesperado de allá entrar, quedar, oír y salir, sin que nadie notara."

Si ya nadie esperaba por una visita de Machado a la FEB, que decir de una visita espiritual? Pues es eso aún lo que él relata dali por delante! Obvio que no se trata sólo de un relato. Como toda buena crónica machadiana, el texto es construido con base en la figura de lenguaje más bien explorada de su obra: la ironia. Acompañe en el link abajo el texto completo, indicación preciosa del actor, director e investigador literario Gláucio Cardoso. Sorpréndase con el final de la trama:

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/08/l-l.html