Uma breve experiência musical espírita
Sempre gostei de fazer experiências inusitadas. Bolo fofo no leite com Nescau, molho tártaro com refrigerante, areia com sal e açúcar. Algumas eram de comer, outras nem tanto... Depois de velho, ainda coloco o bolo dentro do leite, mas as experiências mais bacanas mesmo são no campo da comunicação. Nada como tirar o rótulo do produto e observar os efeitos inusitados que isso causa...
Foi o que aconteceu dia desses, quando eu estava numa festa com vários amigos. Casa bacana, piscina, sol a pino. Quase todo mundo lá muito chegado a um goró. Nada como tomar uma dentro d'água, jogando carta e conversa fora. Fora o mela-bico, que não me desce, pra mim também estava tudo na paz. A música do lado de fora a todo vapor, variando de Madonna a pagode pra animar a festa.
Foi quando resolvi fazer uma experiência. Peguei um CD de música espírita e botei pra rodar. Era hora do almoço, todo mundo concentrado no churras, nem repararam na mudança. É claro que eu precisava ir ao som o tempo todo, selecionar qual faixa deveria tocar a cada momento, pra coisa não sair pela culatra.
O certo é que a certa altura a bebida já tinha ido pra escanteio, e aí veio o primeiro comentário: "Nossa, que coisa maravilhosa isso aqui! Cenário lindo, vento na cara, música agradável...". Naturalmente, ninguém tinha jamais ouvido aquelas músicas. Ficavam só batendo o dedinho ou aproveitando o som pra digerir melhor o rango.

À medida que acabavam as faixas animadas, eu ia gradualmente deixando virem as mais tranqüilas, até um certo limite, pra não dar nas oiça... E as pessoas iam perguntando: "que CD é esse? Bacana essa música..." Ao que eu respondia: "É Alma Sonora, um grupo lá de Curitiba, infelizmente não é muito conhecido...". "Legal, muito boa a música", era a resposta mais comum.
O disco deve ter tocado por uns 40 minutos, até esgotarem as faixas que eu considerava adequadas para aquele público naquele momento. Foi tempo suficiente pra deixar saudade e reclamações quando a música parou. Mesmo assim, optei por colocar outro CD, "normal" mesmo. Já havia explorado tudo o que aquele fantástico exemplar de música espírita tinha a oferecer.
Já estava feliz o suficiente por ver, mais uma vez, o que a essência sem rótulo é capaz de fazer. Por ver que a Arte Espírita pode chegar e fazer a diferença em qualquer lugar. Desde que seja produto da sensibilidade, e não da vontade de doutrinar do artista! E que conte com o empurrãozinho de algum aventureiro experimentador, um pouco maluco, mas sensível aos limites que o ambiente impõe...
Romário Fernandes