sábado, 24 de abril de 2010
Novas
Vai poesia aí? Se preferir tem prosa também. Tudo da melhor qualidade. Inspirado na vivência espírita de Merlânio Maia e enriquecido pela forte ligação desse cantador com a cultura popular nordestina. O resultado são belas páginas de homenagem a uma das figuras mais marcantes da espiritualidade nacional. O livro Contos, Causos e Poesia de Chico Amor Xavier foi lançado no último dia 11, durante o Intermédium, Fórum de Debates sobre Mediunidade realizado anualmente em Recife. Eis a obra, nas palavras do próprio autor:
Este é um presente para palestrantes ilustrarem suas falas e conferências, complemento importante para as aulas de evangelização infanto-juvenil e para Estudos Sistematizados. Excelente leitura para os cultos de Evangelho no Lar, além de diversão e lazer sublime para iluminar nossas mentes com o bom humor de "Chico Amor Xavier" e seu amor incondicional.
Ficou curioso? Pois segue abaixo um aperitivo para "degustação poética", como gosta de dizer Merlânio. Detalhes de compra e outras informações, e-mail para merlanio@gmail.com.
Vai, Chico Amor Xavier!
Desprendeu-se a imensa estrela
Que nas terras do Cruzeiro
Iluminava os caídos
E brilhava o tempo inteiro
Quantos sob as suas luzes
Deitavam ásperas cruzes!?
E no sagrado mister
Quanto pranto ele enxugava
Enquanto a luz espalhava?!
Foi Chico Amor Xavier
Duma casa tosca e simples
Bem no coração do mundo
Essa estrela iluminava
Brilho de Deus oriundo
Quantas páginas do além
Que semeavam o bem?!
Quantos momentos na história
Disseminou-se tal paz?
E em quantos momentos mais
A Terra teve tal glória?!
Segue Chico Xavier
Pelos espaços azuis
Qual astro luminescente
Deixando um rastro de luz
Rastro dum amor tão profundo
Sai do Coração do Mundo
E a Terra inteira alcança
Nos teus noventa e dois anos
Vividos entre os dois planos
Sempre levando esperança
Vai seguindo Chico Amor
Sob os aplausos e as glórias
Do mundo espiritual
Levando as tuas vitórias
Pois ao mundo tu venceste
Na missão que escolheste
Num mundo de expiação
A retirar tanto espinho
Iluminando o caminho
Com imensa devoção
Santa mediunidade
Com que desvelaste a vida
Livros, livros e mais livros
Qual cascata incontida
Muito mais de quatrocentos
Nos teus íntimos momentos
A produzir sem parar
Uns de inconteste poesia,
Romances, filosofia,
Sempre a psicografar
E os autores mais sublimes
Emmanuel, André Luis
Maria João de Deus
Irmão Jacob, Irmão X,
Cornélio Pires, Meimei,
Tantos poetas achei
No Parnaso de Além Túmulo
Além de outros não citados
De jovens desencarnados
Fazendo de livro acúmulo
A Terra entende o recado
Da tua missão sublime
Muitos atendem ao chamado
Que o teu viver imprime
Apóstolo da caridade
A viver a Cristandade
Que tal Doutrina traduz
De quem serviu e amou
Viveu e exemplificou
Allan Kardec e Jesus
Avante Estrela Sublime
Rumo as Esferas Celestes
Pois que tens merecimento
Pelo exemplo que nos destes
Mesmo em grande sofrimento
Não paravas um momento
Consolando em teu mister
Socorrendo, amparando,
Estancando choro e amando
Chico de Luz Xavier
Leva os nossos sentimentos
De amor e de gratidão
Pois te somos gratos, Chico
Por tuas sagradas mãos
Sempre a espalhar mensagens
Trazidas das outras margens
Provando que há vida além
Fazendo a diferença
De quem se vestiu de crença
Pra o mundo encontrar o BEM!
Vai, Chico, leva a alegria
De quem só espalhou luz
Como apóstolo devotado
Vai te encontrar com Jesus
Vai receber as medalhas
De quem venceu as batalhas
Aureolado na Fé
Vai beber da água pura
Do carinho e da ternura
Do Mestre de Nazaré
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Mais

Peleja, trabalho, treta,
Os carim duma mulher
Desarrede o negativo
Abufele o positivo
Tenha o horizonte por régua
Num tenha medo da vida
Tenha o céu como medida
E um sucesso pai dégua
Macho véi, felicidade
É pra se pegar de unha
Num aceite a falsidade
Que é onde a maldade acunha
Num se agonie no camim
Nem permita o farnizim
Num esmoreça seje macho
Corra o mundo, ande légua,
E até na baixa da égua
Que o buraco é mais embaixo
Vá anotano os seus querê
Tudo o que você deseje
Dipendure onde se vê
Leia pra que num fraqueje!
Seja um cão chupano manga
Teja de terno ou de tanga
Nunca espere vá buscar
Persistência atrai sucesso
Que vai fazer seu progresso
Quando menos esperar
No amor num se arrelie

Num bata fofo, se avie
Se avexe e faça um bom plano
Mas fique limpo na nota
Num pegue qualquer marmota
Nem viva de fulerage
Cachorro é quem pega peba
Num viva de mistureba
Nas grota da vadiage
Amor é uma corralinda
Mas num seje um farofêro
Num peça pinico ainda
Seja o galo do terrêro
Pastore que a hora chega
Gato gosta é de mantêga
Dê um bote devagar
Mas dêxe as unhas de fora
Que esse seu cabresto tóra
Antes do ovo gorar
Comece o novo ano
Chô mundiça! É o novo plano

Muche as orêia e rebole
No mato tudo que é mole
Grite do alto do nordeste
Os mundos também são meus
Oxente, cabra da peste!
Agora sim, tás mais forte
Nosso Sinhô sendo o norte
Brinque, dance, grite e torça
Nada há de lhe derrubar
Comece logo a sonhar
Com a Paz que nunca dá trégua
O poeta ainda lhe diz
CABRA VÉI, SEJE FELIZ,
E UM ANO NOVO PAI DÉGUA!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Mais
Graças a indicação preciosa do companheiro Túlio Villaça, ator e músico espírita do Rio de Janeiro, chegamos a mais um ponto de convergência notável entre espiritismo e arte. Dessa vez, nos debruçamos sobre a vida e a obra de Guimarães Rosa. Para descobrir uma série de declarações e passagens curiosas, que revelam a influência espírita marcante na história desse escritor mineiro.
Vejamos o resultado de pesquisa feita pela equipe do Centro Espírita Léon Denis, compilada na Apostila do 10º Seminário Espírita sobre Literatura e Espiritismo:
Em sua coluna do jornal “O Estado de Minas” de 26 de novembro de 1967, [Guimarães Rosa] confessou que “suas histórias lhe chegavam por vias supranormais.”
Citou como alguns contos e novelas eram escritos. A Buriti, de Noites do Sertão, escrita em 1948, veio quase completa num sonho, duas noites seguidas.
Em carta ao escritor João Condé, publicada como um dos prefácios de Sagarana, João Guimarães Rosa afirma a respeito da criação do conto Carro de bois: “Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, neste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enredo, e, um sábado, fui dormir contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (nº. 1). Mas, no domingo, caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (nº. 2) – também com carro, bois, carreiro e guia – totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da outra, da anterior.Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão pré-histórica, que fora definitivamente sacrificada.” O autor, na mesma coluna anteriormente citada, publica informações sobre um romance inacabado, intitulado A Fazendeira de Velas, história acontecida no final do século dezenove num sobrado em que cada canto foi imaginado, minuciosamente, numa antiga cidade mineira. A personagem era solitária, sofrida e vivida pelo narrador. Transcreveremos aqui suas próprias palavras: “Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que a ele se referia, trouxe-me em gaveta.
Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano - adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto a do narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara e decorara, visualizado freqüentando-a por ofício. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isso é verdade. Dobremos de silêncio”E é claro que todas essas experiências não poderiam deixar de ter um reflexo mais concreto na produção literária de Guimarães Rosa. Algo que pode ser percebido com clareza no clássico Grande Sertão: Veredas. Em especial, no que se refere ao personagem Compadre Quelemém, médium, espírita e conselheiro do protagonista da trama, o cangaceiro Riobaldo. No link abaixo, o lado espírita do Grande Sertão!
http://espiritodearte.blogspot.com/2009/01/contedo-extra.html
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Novas
A I Mostra Abrarte Nordeste, que reuniu em novembro grupos e artistas espíritas de quatro estados no município de Guaiúba (CE), ainda rende frutos. Riquíssimos, por sinal. A emocionante apresentação de Tarcísio Lima no último dia do evento inspirou a Coordenação de Artes da Federação Espírita do Estado do Ceará a tirar um projeto antigo do baú.
Tarcísio José Lima canta Doutrina Espírita foi um dos primeiros projetos musicais espíritas gravados no Ceará. Foram dois cassetes lançados em 1994 e 1995. Um divisor de águas, que ajudou a disseminar a música espírita no estado e rendeu regravações em vários CDs do Grupo Ame.
De lá para cá, a idéia de transformar as fitas em disco surgiu em várias ocasiões, sem nunca avançar. Agora, a Coordenação já definiu data para o lançamento do disco, possivelmente o primeiro álbum duplo de música espírita já feito no Brasil: 2 de julho de 2009. A pré-venda começa dia 13 de fevereiro, durante seminário de Divaldo Pereira Franco em Fortaleza, com direito a show de lançamento e uma campanha maciça de divulgação. Mais informações em breve!
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Idéias
Todo aquele que não vê uma ruptura entre o espiritismo à época de Kardec, francês, e o espiritismo brasileiro, de Bezerra e de Chico, ou é novo por essas bandas, ou se ateve à mera adesão dos princípios sem muita pesquisa do que foi o fenômeno Espiritismo no mundo.
A literatura dos primórdios era de jornal de estudos, o que talvez valesse aos periódicos científicos que temos hoje, com a ressalva de a linguagem ser bem menos seca. Ganhava em divulgação o que perdia em rigorosidade metódica. Kardec tinha sim rigor e critério, mas nada comparado à obsessão dos fabricadores de ciência. Conseguia assim mais alcance às massas, utilizando uma linguagem e um raciocínio menos hermético. Preocupava-se com didática, coisa rara nesses textos técnicos.Houve uma grande repercussão quando foi lançada uma biografia de Joana D’Arc, pretensamente escrita por ela mesma, em espírito, psicografada pela senhorita Dufaux de catorze anos. Algumas poesias de inspiração espírita, alguns romances com toques de espiritismo, às vezes guiados pela moral que o espiritismo revelava, mas nunca os trabalhos de fôlego que tivemos aqui no Brasil.
Não queremos colocar em questão aqui a qualidade dos romances mediúnicos, mas o fato incontestável de nosso espiritismo ter se firmado mais em narrativas do plano espiritual que na observação criteriosa de fenômenos ou na análise das mensagens dos espíritos.
Ganhamos uma imensa obra literária em detrimento de uma densa obra científica. Se isso foi ruim? Deixemos Kardec falar:
“Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de
- Mas, isso enviesa a verdade! Dirão as inteligências de escol...
“Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. Que homem se pode vangloriar de possuí-la integral, quando o âmbito dos conhecimentos incessantemente se alarga e todos os dias se retificam as idéias? (...) Se Deus houvera feito da posse da verdade absoluta condição expressa da felicidade futura, teria proferido uma sentença de proscrição geral, ao passo que a caridade, mesmo na sua mais ampla acepção, podem todos praticá-la.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Fora da caridade não há salvação”)- Meu Deus! Que blog profano! Prestam culto ao irracional, traindo a nossa tradição de Luzes... Não citamos aqui como “palavra da salvação”. Resgatamos Kardec para dialogar com ele. E, enquanto os espíritos fortes se estremecem com essa humilhação da razão, mostramos aos artistas brechas na nossa doutrina por onde novas sensibilidades podem surgir.
Allan Denizard
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Idéias
Lembra do último artigo, quando prometemos tratar dos significados de um dogma cientificamente impossível, mas facilmente assimilado pela cultura popular? Eis que abordamos agora a famosa Virgindade de Maria. Não queremos defender a veracidade do fenômeno, mas sim captar o que os ecos desse discurso têm a nos oferecer.
O primeiro fato que devemos tomar consciência é que para os judeus a virgindade perpétua era motivo de escândalo, motivo de desprezo. A mulher, no pensamento agrário e totalizador desse povo, tinha de ser como uma boa terra: fértil. Ora, a descendência de Abraão deveria povoar o mundo.
repúdio ao sexo, representou uma condição humilhante de Maria. Jesus nasceu pobre e de uma mulher virgem.Allan Denizard
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Idéias
Tida como mãe da Igreja e divina intercessora, Maria é constantemente abordada na arte nordestina como elemento feminino extremamente acolhedor para os aflitos das histórias.
Em Hoje é dia de Maria, seriado apresentado pela Rede Globo, em sua primeira jornada, Maria (nome comum em nosso interior) não só aparece como a personagem pequenina, que logo é submetida a difícil dor diabólica de crescer, mas também como um ente luminoso e coroado que a estimula a seguir seu caminho de dor. Mas, Maria não é só resignação, senão coragem de carregar um sonho que valeria desafiar constantemente o diabo para sua consecução.
Em outra obra de arte, a peça O Auto da Compadecida, a Mãe Santíssima surge ao final intercedendo a favor dos recém-finados que estavam ali em frente a Jesus-juiz, num discurso de compaixão difícil de não dobrar o coração de qualquer justiça. Um convite à misericórdia.
Numa obra clássica de Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo,
Colocada em questão por muitos críticos, a obra venceu o tempo como aquela que seria uma doce prova da permanência da poesia após a morte, ou o grande pastiche que, apesar de todo escárnio, poderia ter levado Chico a uma cadeira da Academia de Letras.
Os críticos mais espíritas, e menos afeitos a Maria, poderiam contrapor que as poesias receberam um efeito anímico de Chico. Um efeito anímico que tenha preenchido todo o conteúdo do poema? Imaginemos que sim. A possibilidade de lançar essa hipótese aparece no pescoço do médium, com seu indefectível escapulário.
Onde mais? Pelas mãos de outra grande médium brasileira, Ivone do Amaral Pereira, surgem notícias do além de que há Servos de Maria responsáveis pelo resgate das almas suicidas num vale de sombras.
Trouxemos aqui alguns exemplos da grande presença, para não dizer onipresença, dessa entidade no que se costumou chamar de imaginário popular. A literatura espírita vem trazendo uma possibilidade de ver nessa presença mais do que o produto de um imaginário. Não seriam as manifestações artísticas do povo a representação sensível da intuição de uma realidade?
Ah! Nós espíritas só acreditamos naquilo que pode ser exposto de forma racional, porque a vida é feita de letras de filosofia.
Não! A vida não é feita de letras de filosofia. A filosofia é, de fato, um bom instrumento para traduzirmos a vida para a razão. Só que há muito mais vida do que nossa razão abarca. E nosso espírito tem sede desse tudo que falta. Alavancas se desprendem da gente a nos impulsionar mais rápido para essas águas de vida. A arte parece ser uma delas.
Se esse discurso não lhes convence da função da arte como representante da vida, analisaremos em uma próxima postagem o quanto um dogma cientificamente impossível, mas facilmente assimilado pela cultura popular e versado por cordéis, pode ser filosoficamente intrigante e encantadoramente profundo.
Allan Denizard
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Idéias
Talvez um dos piores defeitos da arte espírita brasileira seja também o que há de mais sublime nela: a doutrinação.
De fato o Espiritismo traz uma mensagem racional extremamente forte e encantadora que faz com que seus adeptos a queiram ensinar ao mundo. Transferem essa querência para a arte e transformam-na numa aula de doutrinação. Há quem louve esse processo, mas há críticas que podem ser colocadas sobre ele.
O que dizer da arte que nasce do bruto da consciência? O processo mais majestoso da poesia é
quando ela começa a sair das mãos como se fossem estrelinhas dos olhos, nos conectando terrenamente com um brilho de não sei onde, transmitindo um não sei o que pras gentes. Ela não precisou vir pela razão, e nem tinha razão para vir assim. Claro que depois podemos até encontrar os motivos da poesia, analisar o contexto histórico em que nasceu, a influência que seu autor recebeu, mas ela nunca vai deixar de ter, mesmo engaiolada pelas explicações dos críticos, um quê de transcendência, superando todas essas suas “genealogias”.Um dos grandes empecilhos para conseguirmos gerar uma arte espírita popular são esses olhos racionais que nos prendem unicamente às coisas que podem ser captadas pela nossa lógica, taxando todo o resto de superstição e olhando de soslaio para toda manifestação folclórica.
Os lírios do campo a que se referia Jesus não vão longe daqui. Da cultura do nosso povo nascem manifestações líricas cheias de um revestimento do tempo, passageiro, é verdade, mas ricas de movimentos do divino.Kardec nunca rejeitou essas verdades do povo, como a nossa arrogante ciência faz. Com seu espírito crítico, pelejava para encontrar as luzes de Deus no meio daquele colorido denso. São re-leituras de Kardec que precisam ser feitas.
A teoria do fluido cósmico, tão maltratada pelos cientistas modernos, ainda é forte entre o nosso povo que não consegue deixar de ver a vida como conectada por fios sutis unindo todos os seres – todos! – no seu pensamento mágico. Alguns pensadores contemporâneos voltam a discutir a realidade sistêmica da nossa realidade, tão querida, embora pouco racionalizada, pela religiosidade nordestina.
Acreditava o organizador do Espiritismo que este sairia
vencedor pela força do povo. O uníssono de suas vozes seria ensurdecedor para os ditos espíritos fortes que, por sua vez, acreditavam estar nas massas a cretinice do homem. Jesus sempre apostou nos pobres de espírito, abertos às novidades de Deus. Alguns dizem que porque eram fáceis de manipular. Os profetas diziam que eram mais dóceis para ouvir. Mas a facilidade de apreender aquela verdade se devia a não terem se feito surdos para o espírito, mantendo a fé viva em uma realidade que ultrapassava o entendimento humano.Para concretizar o que falo aqui, voltarei com um exemplo em outra postagem sobre um dogma tão querido dos nossos nordestinos: a virgindade de Maria. Não temos idéia de como o discurso da virgindade pode se identificar perfeitamente com o nosso espírita. Já dizia o poeta: “Amai para entendê-las!”
Allan Denizard
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
De relance
Você é artista, espírita e nordestino? Cantor baiano, ator cearense, poeta paraibano, dançarino pernambucano, pintor potiguar... Quer um espaço de qualidade para mostrar seu trabalho, aprimorar técnicas e ampliar horizontes? Pois o local fica em Guiauba, Região Metropolitana de Fortaleza! Nos dias 14, 15 e 16 de novembro, o Centro de Educação, Arte e Cultura do município reúne artistas espíritas de todo o Nordeste para um encontro pioneiro. A Arte Espírita de nossa região terá um momento único para crescer em qualidade e notoriedade durante a I Mostra Abrarte Nordeste.
A Mostra abre espaço para grupos e artistas apresentarem seus trabalhos, promove oficinas de aprofundamento técnico e garante trocas de experiência únicas! As inscrições começam hoje, e podem ser feitas diretamente no site da Associação Brasileira de Artistas Espíritas. Artistas ou grupos interessados em se apresentar devem indicar isso na inscrição.
Essa é a primeira iniciativa regional da Associação Brasileira de Artistas Espíritas, que deve promover várias mostras semelhantes até o fim de 2009. Já está agendada para 14 e 15 de janeiro a Mostra Abrarte Sul/Sudeste, em Campinas.
Clipe do Teatro de Bonecos Riso de Deus
Depois do sucesso absoluto na VI Mostra Brasileira de Teatro Transcendental, o Teatro de Bonecos Riso de Deus ganhou um clipe de fotos do espetáculo Viva e Deixe Viver, apresentado nos terminais de ônibus de Fortaleza e em várias cidades do interior do estado. Confira logo abaixo o resultado!
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Idéias
Na Revista de Cultura Preá do Rio Grande do Norte, edição de setembro de 2005, em entrevista exclusiva com nosso estimado dramaturgo Ariano Suassuna, encontramos a seguinte passagem:
Preá – O texto da "Compadecida" permanece o mesmo de 50 anos atrás? O senhor mexeu em alguma coisa?
Ariano – Mexi muito pouco. Para esta edição comemorativa que fizeram agora, mexi um pouquinho. Vou dizer uma coisa em que eu mexi. Quando eu era novo, era muito radical. Então, algumas frases que eu coloquei lá, depois me causaram acanhamento, achei que eram uma grosseria. Tem uma cena lá, em que João-Grilo está tremendo e pede a Nossa Senhora ou a Cristo, para deixar de tremer. Aí, João-Grilo diz – "Que tremedeira esquisita, o que é isso?" Ele responde: "Isso é besteira do demônio, esse camarada é meio espírita, tem mania de fazer mágica". Achei uma grosseria com os espíritas. Então, eu cortei.
Sempre quis refletir em cima dessa arte que vem das vísceras e da religiosidade do Nordeste para saber como poderíamos fazer uma dessa com o jato espírita influenciando.
Para refletir e inovar em cima disso não precisávamos das pazes com Ariano Sussuna, já que ele mesmo diz que não é dono da cultura nordestina, nem é protagonista da resistência dela. Bastava usar da ironia, da graça, do cômico em cima da desgraça. Dos brincantes, dos jogos de roda, das cantigas cercados pela caatinga.
Mas, bem que foi bom, na sua maturidade, ter ele perdido a radicalidade contra o nosso povo espírita, que sempre me dava um desgosto de assistir o Auto da Compadecida só por conta daquela ceninha chata em que Jesus, o próprio, acusa Satanás de ter mania da gente, e viver fazendo magia.
Ainda por aqui a gente vai tecer comentários que possam analisar a nossa cultura local, e fazer conexões com nossa cultura transcendental. É incrível como tem paralelo entre as duas, e nenhuma vai sair aleijada do choque que a gente vai tentar promover, pelo contrário!
sábado, 12 de julho de 2008
Conteúdo Extra
Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo há de ter conhecido diversos, homens e mulheres. Pois não sim? Por mim. Tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d´Outro o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será? (p. 9)
Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que o inimigo de morte pode vir como filho do inimigo. Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sido bons, de bem. Eles têm um filho duns dez anos, chamado Valtêi – nome moderno, é o que o povo daqui agora aprecêia, o senhor sabe. Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino bebeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura. A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom. Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega para a quaresma que vem... Uê-Uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? Aquele menino tinha sido homem. Devia, em balanço, terríveis perversidades. Alma dele estava no breu. Mostrava. E, agora, pagava. Ah, mas, acontece, quando está chorando e penado, ele sofre igual fosse um menino bonzinho... Ave, vi de tudo, neste mundo! Já vi até cavalo com soluço... – o que é a coisa mais custosa que há. (p. 12)
Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muita reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons espíritos me protegem. Ipê! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. (p. 14)
Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca... Ah, formei aquela pergunta, para compadre meu Quelemém. Que me respondeu: que, por perto do Céu, a gente se alimpou tanto, que todos os feios passados se exalaram de não ser – feito sem-modez de tempo de criança, más-artes. Como a gente não carece de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de uma noite. Assim que: tosou-se, floreou-se! Ahã. Por isso dito, é que a ida para o Céu é demorada. Eu confiro com compadre meu Quelemém, o senhor sabe: razão da crença mesma que tem – que, por todo mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. Sujeito assim madruga três vezes, em antes de querer facilitar em qualquer minudência repreensível... Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não subtrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei! O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (p. 21)
Às vezes penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu. (p. 54)
