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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Idéias

Uma avaliação parcial da Mostra

Três dias e a Mostra Brasileira de Teatro Transcendental mostrou a que veio nessa sétima edição! O espetáculo Entre Deus e Mamon, do Teatro de Bonecos Riso de Deus, se apresenta desde sábado (15) no interior e nos terminais de ônibus da capital. Diversão e alegria garantidos para o público de todas as idades!

Na terça-feira, subiu ao palco principal a peça Valores: a cotação humana, de Brasília. Uma seqüência de monólogos mais ou menos interativos e com forte teor filosófico. A montagem apresenta altos e baixos. Apesar da boa contribuição que traz ao público, com uma proposta de repensar nossas ações diárias, a peça poderia tranqüilamente ser reduzida em mais de 20 minutos!

Ganharia em dinamismo e atratividade, sem perder o foco! Além disso, é preciso explorar mais recursos como luz, corpo e som, como forma de potencializar a força do texto.

Na quarta, foi a vez de O amor jamais te esquece, de São Paulo. Mais uma adaptação de romance épico, no caso, do médium André Luiz Ruiz, atribuído ao Espírito Lucius. Nada de novo no horizonte. A mesma velha transposição da literatura mediúnica para os palcos. Falta a experimentação, falta aproveitar melhor as possibilidades oferecidas pela linguagem teatral, bem diferentes daquelas que marcam o texto puramente literário. Como quase sempre ocorre nesse tipo de montagem, sobra explicação, falta criatividade cênica.

Ontem, por fim, a mais agradável supresa da Mostra, até aqui: Quem tem medo da morte?, dos baianos da Comunidade Arte e Paz. Sobre o espetáculo, vamos direto ao ponto. Compartilho com vocês uma breve resenha que escrevi:

Grandes, pequeninos, simples ou complexos, todos temos medos. Alguns deles são úteis. Ajudam a evitar o perigo, garantem nossa sobrevivência. O resto não passa de entulho. Coisas que a mente cria para se fechar. Coisas que a gente fia para se amarrar. E se há entre os medos um mais forte, esse é o medo da morte!

Quem não tem? Quem nunca sentiu? Quem nunca se viu angustiado pela perspectiva do fim? Talvez por isso mesmo não dê pra ficar alheio à humanidade exalada por
Quem tem medo da morte? Um texto profundo, que ganha dinamismo na direção bem conduzida de Edmundo Cezar. A cada cena, um novo olhar, a cada esquete uma forma nova de se libertar. Da cegueira, da angústia, das limitações... Da incerteza sobre o porvir, que nos impede de usufruir uma vida plena!

O tom escolhido é de provocação. Clichês sobre o aquém e o além são sucessivamente derrubados pelos três personagens que impulsionam a narrativa. Eles mesmos se revezam nas funções de condutores e vivenciadores da trama. Em conflitos bastante sugestivos sobre as influências invisíveis que nos cercam a cada passo da jornada.

Quem tem medo da morte? propõe à platéia um modo singular de perceber a morte. Sem dogmas, pudores ou receios. Com a espontaneidade de quem caminha sabendo aonde vai chegar. E entende que o amanhã reflete nossas escolhas. Que a morte é um novo princípio. E o nascimento, apenas um recomeço.

sábado, 6 de junho de 2009

Idéias


O que há de espírita em Pensamento Sideral?

Trazemos hoje para o Espírito de Arte o resumo de debate realizado recentemente num grupo virtual sobre Música Espírita. O assunto foi a canção Pensamento Sideral, assinada pelos compositores Douglas Thá Júnior e André Luiz Dias, do Alma Sonora. Pelo menos no eixo Sul-Sudeste do Brasil, é hoje uma das músicas mais tocadas no movimento espírita. Para quem nunca ouviu, eis o clipe mais conhecido:



A canção é, sem dúvida, a obra mais premiada entre os trabalhos musicais notoriamente feitos sob a influência do espiritismo. Acumula prêmios de melhor música e melhor arranjo em uma série de festivais nacionais, como já falamos antes. Mas, afinal, o que haveria mesmo de espírita nessa badalada composição?

Antes de tudo, é preciso lembrar que a música se compõe essencialmente de três elementos: melodia, harmonia e ritmo. E que os estilos musicais se definem pela forma como essas variáveis se relacionam. Naturalmente, não há uma "música espírita" no sentido propriamente musical da expressão. Basta ouvir aleatoriamente duas coletâneas espíritas, a exemplo dos CDs Cancioneiro Espírita, para perceber que há muito pouco em comum entre as milhares de canções compostas e cantadas pelos adeptos do espiritismo.

Se há algo pelo menos parecido, esse algo está nas letras das músicas. Elas também se apresentam numa infinidade de nuances. Mas uma coisa, praticamente todas têm em comum: a influência da proposta espírita de compreensão da realidade. Podem falar de Jesus, amor e caridade, como a maioria, ou de luta, dor, desigualdades dociais, sexo e drogas, como se vê mais recentemente. Via de regra, é fácil notar a inspiração do ideal espírita no texto.

Pois bem! É justamente esse o mote do debate a que nos referimos no início deste artigo. O que há de efetivamente espírita na letra de Pensamento Sideral? Eis a síntese das idéias apresentadas. Elas aparecem na forma de diálogo: um debatedor argumenta e, logo a seguir, o outro comenta sobre o mesmo assunto!

Quero ser um anjo,
Quero ser imortal

Podemos entender que o "querer ser um anjo" é o alcançar o estado de perfeição através da evolução sucessiva, ideia espírita. Porém, isso não encontra ressonância no resto da canção, não percebemos nenhuma passagem que sugira um contexto de evolução, de um crescimento. Apenas vejo um desejo de ser coisas e estar em condições etéreas, libertas e, no meu entendimento, bastante vagas.

Na Doutrina Espírita sabemos que todos somos imortais, independente de nosso desejo ou não. Claro, podemos fazer uma aproximações poética com o conceito de se descobrir imortal, se enxergar como imortal, de agir como imortal. Mas é uma interpretação que não vai da música em si.

A coerência com a proposta espírita, desde os primeiros versos, é impecável. Obviamente, sabemos o que é um "Anjo":

"
Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins formam uma categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos?
— Não; são Espíritos puros: estão no mais alto grau da escala e reúnem em si todas as perfeições
."

Quanto ao desejo de ser imortal: esse verso traduz num anseio íntimo do autor a essência da proposta espírita, que é a percepção do homem como ser imortal. Em lugar de preconizar que nós o somos, o eu-lírico revela sua própria ânsia de atingir essa condição.
Tira o postulado espírita da condição de Lei, imposta de fora para dentro, para colocá-lo como expressão da vontade profunda do Espírito encarnado no corpo terreno.

Quero viajar na velocidade da luz
Ir aonde o pensamento me conduz

Outro dia me argumentaram que "pensamento sideral' seria sinônimo de "espírito", porque o espírito é um pensamento e é livre pelo espaço em geral. E eu me questionei: a conclusão dessa frase é "quero ser um espírito"? Como poderia ser diferente, como poderia eu não ser um espírito? Claro, podemos ir a uma questão filosófica do que seria o espírito, mas que a música não desenvolve. Os demais versos são a continuidade de desejos por liberdade, por condições como "viajar na velocidade da luz", de ir onde o pensamento conduzir, mas onde não vejo um objetivo, apenas um desejo, um anseio vago por liberdade.

Quanto à expressão "Pensamento Sideral":

"
O Espírito é, se quiserdes, uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea", dirá O Livro dos Espíritos, acrescentando que "Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também o está, pois é a alma que pensa" e que "Os Espíritos puros habitam determinados mundos, mas não estão confinados a eles como os homens a Terra; eles podem, melhor que os outros, estar em toda parte". O Espiritismo não fala nada sobre a expressão "pensamento sideral". Mas oferece toda a fundamentação teórica para o que ela expressa dentro do contexto da música.

O Espírito Puro, tão liberto quanto possível da matéria, é uma Essência que é mais do Universo (ou, pelo latim, Sideral) do que de qualquer mundo específico. E o que melhor do que a figura do "Pensamento" para expressar essa essência livre de barreiras que transita pelo infinito?

"Pensamento Sideral" é uma forma poética e bem fundamentada n'O Livro dos Espíritos de traduzir o conceito de Espírito Puro.

Prosseguimos então com ser um pensamento sideral, viajar na velocidade e ir até onde o pensamento conduz. Ora, quem pode viajar à velocidade da luz, a barreira da rapidez admita pelo conhecimento humano, senão os Espíritos altamente depurados? E como podemos entrever essa habilidade senão através dos sonhos, da imaginação, do pensamento?

Diria, enfim, que todo o refrão da música poderia ser sintetizado na frase: quero ser um Espírito Puro.


Me leva até onde o céu está
Nem dor, nem medo não
Na luz que extermina a escuridão
Na paz, na voz que me faz ressoar

Na sequência, vemos o sentimento de passividade, de se deixar conduzir por um algo que te leva até o céu, onde supostamente não há dor nem medo. Nós espíritas não cremos num céu como crêem nossos irmão evangélicos e católicos, então eu suponho que a música fala do céu como elemento poético, como a imensidão da altura sobre nós, onde repousam as nuvens, e de onde recebemos a luz solar. Porém, num contexto estritamente espírita, não vejo nenhum sentido para esse céu não ter dor nem medo, até porque não vemos motivo algum para isso na canção; é apenas um desejo, uma vontade de não sentir dor nem medo, mas sem nenhuma razão para que o céu possa proporcionar isso.

Aqui cabe uma reflexão: o próprio ato de querer, de desejar, é, em si, um ato, uma ação, ainda que interior. Podemos até agir sem querer, mas nada como a vontade firme e decidida para fundamentar uma ação eficiente e proveitosa. E será precisamente o impulso íntimo de crescer que vai levar o Espírito à condição de Perfeição, com todas as qualidades que lhe são inerentes.

Portanto, acho que a letra passa longe de transmitir uma sensação geral de passividade, ainda que o verso "Me leva até onde o céu está" possa, isoladamente, dar impressão.

A respeito dele, inclusive, e da estrofe que se segue, é notável mais uma vez a coerência com a perspectiva espírita. Eis o que traz o Livros dos Espíritos sobre o conceito de "
céu":

"
É o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores onde os Espíritos desfrutam de todas as suas qualidades sem os tormentos da vida material nem as angústias próprias à inferioridade."

Noutras palavras, o céu, onde quer que ele esteja, ou como quer que queiramos chamá-lo, não tem dor nem medo, tal qual o eu lírico expressa em Pensamento Sideral.


Em seguida, falamos da "luz que extermina a escuridão", numa metáfora desgastada pelo mau uso, de desenhos animados japoneses a canções românticas onde a "luz do amor" vence a "escuridão da solidão". Claro que essa canção não tem culpa dos maus usos. Porém, diante da ausência de qualquer definição mais específica, a metáfora empobrecida pelo uso continua pobre.

Sim, a seguir, a velha mas recorrente metáfora da codificação espírita sobre luz e escuridão. Cito apenas dois exemplos do Livros dos Espíritos:

"
...a luz mata as trevas e a caridade mata o egoísmo", "Ai dos que fecham os olhos à luz! Preparam para si mesmos longos séculos de trevas e decepções."

Andar sem precisar de chão
Voar, nem asas, nem balão
Liberdade, meu porto final
A paz, a voz que me faz ressoar

A próxima estrofe segue a mesma linha, continuando a buscar o voar, a liberdade física dos espaços, uma paz sem âncora em nenhum conceito, uma voz que ressoa pelo eu lírico, embora não haja nenhuma menção de que voz essa, de onde ela vem, o que ela diz. O resumo que eu faço é: como espírita, ela não me traz nada - ou me traz o nada.

A conclusão da estrofe é quase uma transcrição de trecho do famoso prefácio do Evangelho segundo o Espiritismo. Ou não há concordância entre

"Na voz que me faz ressoar" e "
As grandes vozes do Céu ressoam como sons de trombetas, e os cânticos dos anjos se lhes associam"?

Por fim: "Andar sem precisar de chão / Voar, nem asas, nem balão / Liberdade, meu porto final". Ainda aqui, referências à condição daquele que se libertou da matéria. Simples, talvez, diante de tudo aquilo que caracteriza a Perfeição Espiritual. Mas aquelas que o eu lírico entrevê e pelas quais anseia naquele moment
o. A libertação, vale destacar, de tudo o que limita e condiciona a plenitude espiritual é mais uma característica dEles, ainda de acordo com o Livro dos Espíritos:

Passaram por todos os graus da escala e se libertaram de todas as impurezas da matéria. Tendo atingido o mais elevado grau de perfeição de que é capaz a criatura, não têm mais que sofrer provas nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, a vida é para eles eterna e a desfrutam no seio de Deus.

Ufa! E agora, o que pensam sobre o tema?! Queremos opiniões!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Idéias

Por uma Arte Nascente...

Arte espírita até bem pouco tempo atrás era sinônimo de doutrinação e simploriedade, salvo algumas honrosas exceções. Era um ou outro grupo teatral, um ou outro compositor capazes de produzir uma arte ao mesmo tempo antenada com o mundo de hoje e inspirada numa vivência espírita. Mais raro ainda era encontrar quem se dedicasse à produção de algo arrojado, capaz de entrar no mercado e disputar espaço de igual pra igual com a "arte secular".

O DVD Arte Nascente do GAN (GO), lançado em 2008, trouxe uma reviravolta nesse panorama. Não foi o primeiro trabalho musical espírita lançado em DVD (vide o COMEBH 25 Anos), nem o primeiro a utilizar uma linguagem contemporânea (vide Moacyr Camargo, Flávio Fonseca, Alma Sonora e o próprio GAN). Mas talvez tenha sido pioneiro em reunir as duas características, essenciais para alavancar a Arte Espírita no panorama nacional.

O DVD da Comebh, que ainda não tivemos oportunidade de assistir na íntegra, parece ser uma coletânea do cancioneiro espírita mineiro. As canções são muito bem executadas e arranjadas, sem dúvida. E o resultado é um trabalho de qualidade sonora e visual, a ser apreciado ainda pelos espíritas de todo o mundo. Mas talvez essa seja a grande diferença conceitual em relação ao Arte Nascente: o público-alvo. As músicas do COMEBH 25 Anos a que assistimos dificilmente conquistariam um público não-espírita, por trazerem muito forte a marca do hino religioso. Letras de adoração e louvor, versos com inversões para rimar... Melodias que lembram de pronto o hinário cristão. Um repertório que até poderia ressoar também num público carismático, católico ou evangélico. Mas que tem pouca chance de arrebatar a grande massa de pessoas sem engajamento religioso...

O que o GAN conseguiu fazer foi justamente transpor essa barreira. O repertório, mesmo quando fala de Jesus, passa longe da tradicional pregação religiosa. As letras são jovens, sem floreios e lembram antes de tudo o estilo dos compositores do Pop Rock brasileiro. A exceção, talvez seja o clássico Nova Luz, que não abre mão do sermão evangélico nem da sonoridade de hino. Mas acaba "redimido" pelo arranjo magistral composto e executado pelo maestro Paulo Rowlands com um quarteto de cordas. No geral, o repertório parece até despretensioso, mas traz um conteúdo forte, humano e universal, sem deixar de ser espírita.

A musicalidade envolve. E direciona o público segundo um plano muito bem traçado. O show começa a la anos 70, com Alegre Evolução e aquela galera vestida de Nos Embalos de Sábado à Noite. A seguir Busca mantém o clima disco, que vai se dispersando com a balada de Eu Venci e o rock de Subindo até Você. Aí chega o momento mais intimista, com Sou seu Anjo, Tudo É Amor, Reparação e a apoteose de Nova Luz, que termina soando como alguma peça de Mozart.

Do meio pro fim, o DVD é predominantemente pra cima, com espaço para o rock, o pop e o reggae. Provando, a cada faixa, que é possível sim fazer uma Arte Espírita envolvente, que fale uma linguagem atual e leve o espiritismo sem pregação. Sem dúvida alguma, um salto adiante na consolidação dessa arte ainda nascente que os espíritas estamos aprendendo a fazer!

Romário Fernandes

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Novas

Revista Espírita Internacional discute Arte Espírita

A primeira edição da octogenária Revista Internacional de Espiritismo em 2009 abriu um espaço pioneiro para as discussões sobre Arte Espírita. Nos últimos anos, a publicação já havia noticiado eventos artísticos espíritas e até abrigado reflexões sobre educação espírita que tangenciavam o assunto Arte, como se pode ver aqui. Mas com o artigo O que é Arte Espírita?, que dialoga com as idéias do filósofo russo Léon Tolstói, o debate se lança sobre a própria concepção do que é Arte. Uma reflexão mais profunda e que poucos espíritas fizeram até hoje de forma sistemática ou fundamentada.

Eis aqui a provocação central do artigo: (...) a técnica artística utilizada pelos espíritas tem dado origem a obras de arte? Para fazer música, basta saber jogar com melodia, harmonia e ritmo (a letra é um elemento opcional, mas muito valorizado na música religiosa). Para fazer poesia, métrica, rima e ritmo dão conta do recado. O teatro exige ator, platéia e uma idéia, enquanto a dança demanda corpo e ritmo. Qualquer um pode executar com maestria esses ofícios, desde que resolva se dedicar com afinco ao estudo e à prática deles. É uma simples questão de exercício, prático e intelectual.

Mas há uma enorme distância entre ser músico, poeta, ator ou dançarino e ser artista. Pessoas que dominam essas atividades essencialmente técnicas podem produzir e executar inúmeros trabalhos movidos pelo desejo de vender idéias, ganhar dinheiro ou chocar pessoas, sem que haja um único sentimento sincero por trás dessa iniciativa. Conseguem produzir beleza, mas nem sempre arte. Do mesmo modo, homens e mulheres sem a menor noção teórica podem produzir autênticas obras de arte. Basta darem vazão ao que sentem através de sons, gestos, formas e traços compreensíveis para sensibilizar e até emocionar outras pessoas. Sua arte sincera toca, independente da preocupação estética.

De modo geral, os trabalhos que se propõem a ser arte espírita não pecam por falta de conteúdo. O equívoco parece estar na natureza desse conteúdo. Em lugar de um sentimento sincero, humano e, por isso mesmo, universal que o autor deseje compartilhar, há idéias e crenças particulares que ele quer divulgar...

O artigo, que reflete em linhas gerais a opinião do Grupo Espírito de Arte sobre o tema, pode ser encontrado na edição nº 1 de 2009 da RIE. Ela pode ser comprada em bancas ou através do site oficial da Casa Editora O Clarim. Bom proveito!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Mais

Por trás do Parnaso de Além-Túmulo

Versión en Español

Charlatanismo, inconsciente ou mediunidade? Qual das três hipóteses explica melhor o fenômeno Parnaso de Além-Túmulo? Lançada em 1932, a antologia poética entrou para a história como o primeiro de mais de 400 livros atribuídos à psicografia de Chico Xavier. "...em consciência, não posso dizer que são minhas, porque não despendi nenhum esforço intelectual ao grafá-las no papel", escreveria o médium um ano antes, afastando de si qualquer mérito pela autoria dos textos.

Originalmente eram 60 poemas, que traziam assinatura de 14 autores lusófonos. Ao longo das edições seguintes foram-se incorporando mais e mais textos, até que na sexta (1955) o livro chegou à formatação final: 259 poemas e 56 autores. De Castro Alves a D. Pedro II, há versos de todo tipo, freqüentemente tratando de temas espirituais, morais ou religiosos. Que repercussão teve a obra? Vejamos alguns exemplos, extraídos do mais completo trabalho sobre o tema feito até hoje, A poesia transcendente de Parnaso de além-túmulo, de Alexandre Caroli.

Humberto de Campos, à época já ocupante da cadeira de Joaquim Manuel de Macedo na Academia Brasileira de Letras, "resume o tipo de comentário feito pelos intelectuais da época que se pronunciaram sobre o tema", nos dizeres de Caroli:

Eu faltaria, entretanto, ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pela pena do sr. Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificavam neste planeta. Os temas abordados são os que os preocuparam em vida. O gosto é o mesmo e o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos.

Monteiro Lobato, por sua vez, afirmou: Se o homem realmente produziu por conta própria tudo o que vem do ‘Parnaso’ então ele pode estar em qualquer Academia, ocupando quantas cadeiras quiser...

Enquanto isso, o fundador da Academia Rio-Grandense de Letras, Zeferino Brasil, sentenciava: ou as poesias em apreço são de fato dos autores citados e foram realmente transmitidas do Além ao médium que as psicografou, ou o Sr. Francisco Xavier é um poeta extraordinário, genial mesmo, capaz de produzir e imitar assombrosamente os maiores gênios da poesia universal.

Apesar de todos as avaliações positivas, é claro que a obra passa longe de qualquer unanimidade. Outros analistas apontam a ocorrência de versos pobres, construções simplórias e sonetos mal-formulados. Uma das críticas mais corriqueiras foi sintetizada em 1971, na Revista Realidade, pelo crítico literário Léo Gilson Ribeiro: Uma coisa é clara: Quando o 'espírito' sobe, sua qualidade desce. É inconcebível que grandes criadores de nossa língua, depois da morte fiquem por aí gargarejando o tatibitate espírita.

Exagero ou não, o fato é que muitos textos atribuídos a escritores mortos parecem meio passados mesmo. Se em alguns a semelhança é gritante, a exemplo de Augusto dos Anjos e Guerra Junqueiro, noutros a diferença não deixa de falar tão alto quanto... Vide os sonetos do Alberto de Oliveira mediúnico, bem distantes da perfeição técnica que notabilizou o parnasiano. Ou mesmo os atribuídos a Antero de Quental, com construções bem mais simplórias do que aquelas que marcaram o estilo do poeta português.

Sem a pretensão de encerrar o debate, deixamos aqui apenas um dos sonetos do Parnaso para análise. Chama-se Jesus ou Barrabás?, e traz a assinatura do Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac. Se é dele mesmo, não podemos dizer. Mas que se trata de uma das mais belas peças já atribuídas a Espíritos, ah, se trata! É só clicar aqui!

domingo, 14 de setembro de 2008

Idéias

Bezerra: Novos Recordes e Avaliação Crítica

Terceiro final de semana de recordes para Bezerra de Menezes, o Diário de um Espírito! Só agora, entre os dias 12 e 14, a bilheteria somou R$327.126, segundo dados do SDRJ, enquanto o público chegou a 32.239 pessoas, também em todo o país, de acordo com a empresa especializada Nielsen EDI. Os resultados mantêm a produção pela terceira semana consecutiva entre as dez mais vistas nos cinemas brasileiros, com a maior média de público entre todos os filmes em exibição e o melhor desempenho entre os longas nacionais.

Aliás, nesse último quesito, O Diário de um Espírito já figura entre os cinco primeiros no Rankings Nacional 2008, exatamente como prevíamos uma semana atrás... Ha quem fale em fechar o ano na segunda colocação, atrás apenas de Meu Nome não é Johnny... O certo é que, pelo menos os custos de produção, esses com certeza serão superados ainda nos próximo dias! Graças a você que ainda não viu e vai correndo garantir lugar nesse marco da história espírita mundial!

Acompanhe agora algumas opiniões do Espírito de Arte, que viu e debateu o filme:


Entre mitos e fatos, poderiam ter tornado a história dele muito mais atraente com os recursos que o cinema oferece. Por mais que uns e outros digam o contrário, a atuação de Vereza foi brilhante. E se houve falhas, vi muito mais responsabilidade na imperícia da direção do que numa falta do ator.

Admirável o público que ainda conseguimos com a empreitada. Ainda mais admirável as lágrimas que o filme conseguiu derramar. É prova de que ou o nosso público é pouco crítico, ou é indulgente de mais, ou que a história do Médico dos Pobres encanta para além das resistências materiais. Talvez sejam os três!

De qualquer forma, foi extremamente salutar para o nosso movimento a inauguração desse espaço no cinema. Permitiu que a temática dos espíritos fosse abordada com algo mais que
assombrações e suspenses. Embora essa produção também tenha caído nesses jargões americanos, ela inseriu a possibilidade de diálogo ético a respeito do mundo espírita. Não são mais apenas espíritos que assustam, cadaverizados e enredados em cenas de crimes. São influências de consolo dos nossos que nos esperam por lá.

Allan Denizard, ator e estudante de Medicina


O desenrolar do drama revelou-se pouco emocionante e instigador. Muitas são as cenas em que simplesmente a voz do Bezerra de Menezes (Carlos Vereza) aparece relatando fatos e histórias como se fosse um narrador, mostrando pouca dinamicidade dramática e tornando o filme cansativo e bastante linear. Outra coisa que percebi foi a ausência de conflito. Não havia embate, não havia clímax na história o que tornava o filme um pouco monótono.


Além disso, a produção não conseguiu mostrar com clareza as
principais cenas da vida do “médico dos pobres”, talvez por ter tido a intenção de relatar toda
a vida de Bezerra de Menezes, desde o nascimento até a morte, prejudicando o mergulho em algumas partes.

Apesar disso, acredito que a proposta de homenagear tal personalidade é bastante importante, tanto como forma de celebração quanto de divulgação do trabalho de Bezerra de Menezes e da Doutrina Espírita.

Natália Dantas, atriz, cantora e psicóloga


O filme Bezerra de Menezes foi, sem delongas, chato. Cansativo e muito linear, me parece que ele conta a história do Bezerra como se estivesse narrando um livro bibliográfico. E, apesar dele ter vivido coisas impressionantes e emocionantes, sabemos que a linguagem do cinema precisa ser diferente para atrair e prender o público. Acredito que a mudança de gênero feita de última hora foi a principal causa da infelicidade da obra.

Larissa Bezerra, atriz e estudante de Publicidade

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

De relance

Parabéns para nós!

Um mês e dois dias. Foi o tempo necessário para que o Portal Cearense de Arte Espírita batesse a casa dos 1.000 acessos, com quase duas mil visitas a páginas do site. Segundo o Google Analytics, já tivemos gente de Portugal, Estados Unidos, Japão, Suíça, Itália, México, França e Espanha dando uma espiada aqui. E além dos links para este blog que citamos no último De relance, temos agora também ligações no gigante Portal Garanhuns Espírita, na página da União das Sociedades Espíritas de São Paulo e no site Espiritismo na Era Digital. Novas fronteiras reais e virtuais, que pretendemos desbravar com cada vez mais garra em benefício da Arte Espírita!

Avaliação: O Amor Venceu

Não é tarefa simples adaptar um roteiro literário para o teatro. As linguagens são muito distintas, as formas de desenvolver a trama, idem... E mesmo quem sabe disso, nem sempre dá conta do recado. É mais ou menos o que acontece em O Amor Venceu, o espetáculo paulista apresentado na pré-estréia da Mostra deste ano. Figurino bonito, cenário vistoso, diálogos bem ritmados e um conflito central interessante, que fica claro logo nos primeiros minutos. Mas os pequenos pecados acabam sobressaindo na impressão final. Um narrador fantasma, típico de livros e pouco eficaz em teatro. Pior: trata-se de um narrador doutrinador, que recorre ao velho "espiritês" para "esclarecer" a dimensão espiritual daquilo que a platéia vê. O uso do jargão espírita acaba escapando também quase sempre que algum personagem fala de assuntos correlatos à doutrina, como a existência de Deus, reencarnação e Lei de Causa e Efeito. Mas o que pode incomodar mesmo até o espírita mais carola é a extensão da peça. São quase duas horas de um enredo fragmentado em várias pequenas histórias que ora se cruzam, ora se separam. Algo comum em livros, mas que extrapola a boa vontade de uma platéia teatral... Mesmo assim, pela beleza da peça, que conta com boas cenas e atores talentosos, vale a pena conferir. Só não pode ter pressa pra ir embora...

sábado, 26 de julho de 2008

Mais

O médium e os pintores

Desde o último dia 18, o baiano Florêncio Anton encanta cearenses da capital e do interior com apresentações de pintura mediúnica. Percorreu, em uma semana, Limoeiro do Norte, Quixeramobim, Aracati e vários bairros de Fortaleza. O ritual é o mesmo em todos os lugares: pequena palestra de abertura com apresentação e explicações sobre o tema, prece inicial, música ambiente... e começa o transe.

O público observa atento a transformação de Florêncio, que leva alguns minutos. De pé, atrás de mesa organizada para a pintura, ele se enverga ligeiramente, mãos sobrepostas e braços arqueados. Um gesto característico é o sinal para que o ajudante lhe entregue a tela em branco. Os movimentos iniciais são bruscos, aparentemente desconexos. À medida que passam os minutos, os contornos ganham forma e já é possível entrever uma típica natureza-morta. Vasos com flores são muito comuns na pintura atribuída a Espíritos. Mas dividem também espaço com paisagens e retratos. Olhos fechados na maior parte do tempo, o médium termina a obra, assina e exibe o resultado à platéia, enquanto escreve algo atrás da tela.

Em média, a sessão completa leva pouco mais de uma hora. Ao final, entre dez e vinte quadros foram produzidos. As assinaturas variam bastante. "Desde sacros, dos séculos XI e XII, até modernos, como Picasso, Tarsila do Amaral e outros", explica Florêncio. Até hoje, ele contabiliza cerca de 24 mil telas, assinadas por 105 nomes ligados à pintura.

O baiano garante que tem pouca afinidade com as belas artes. Diz que quase foi reprovado na escola, duranto o Ensino Fundamental, pelo mau desempenho nas aulas de Educação Artística. E que hoje em dia, o quadro não mudou. "Num sentido técnico, meu conhecimento em artes plásticas é mínimo. Num sentido histórico, até por respeito a todos esses Espíritos que têm se utilizado da nossa faculdade, eu já conheço alguma coisa", assegura.

Durante a apresentação de ontem, no teatro Nadir Papi Saboya, o público mais uma vez saiu impressionado com o espetáculo. Pessoas de todas as idades comentavam, na saída, sobre as possíveis explicações para o que haviam acabado de ver. Aparentemente, só uma delas não via motivos para espanto: o artista plástico Roberto Galvão.

Com 36 anos de carreira e diversas exposições internacionais, o membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte foi sucinto. "As obras não são muito significativas, insignificantes até. De uma técnica profundamente elementar, espontânea, e com um resultado compatível com o tempo que ele gasta pra fazer a obra". Noutras palavras, Galvão não vê motivos para acreditar que haja, de fato, pintores famosos por trás dos quadros que saem das mãos de Anton.

Quem conversava com ele só esqueceu de perguntar o que Roberto acha do fato de a pintura ser feita de olhos fechados e até hoje, nunca ter se repetido... Pelo sim, pelo não, quem quiser, ainda pode conferir amanhã a última apresentação do médium baiano em Fortaleza (confira a agenda ao lado!)

domingo, 1 de junho de 2008

Versión en Español

Por detrás del Parnaso de Além-Túmulo

¿Charlatanería, inconsciente o mediumnidad? ¿Cual de las tres hipótesis explica mejor el fenómeno Parnaso de Além-Túmulo ("Parnaso del Más Allá", en espanõl)? Lanzada en 1932, la antología poética entró para la historia como el primero de más de 400 libros atribuidos a la psicografia de Chico Xavier. "...en conciencia, no puedo decir que son mías, porque no hice ningún esfuerzo intelectual al graba-las en el papel", escribiría el médium un año antes, rechazando cualquier mérito por la autoría de los textos.

Originalmente eran 60 poemas, que traían firma de 14 autores lusófonos. Al largo de las ediciones siguientes fueron incorporados más textos, hasta que en la sexta (1955) el libro llegó al formato final: 259 poemas y 56 autores. De Castro Alves a D. Pedro II, hay versos de todo tipo, frecuentemente tratando de temas espirituales, morales o religiosos. ¿Que repercusión tuvo la obra? Veamos algunos ejemplos, extraídos del más completo trabajo sobre el tema hecho hasta hoy, A poesia transcendente de Parnaso de além-túmulo, de Alexandre Caroli.

Humberto de Campos, a la época ya ocupante de el sillón de Joaquim Manuel de Macedo en la Academia Brasileña de Letras, "resume el tipo de comentario hecho por los intelectuales de la época que se pronunciaron sobre el tema", según Caroli:

Yo faltaría, sin embargo, al deber que me es impuesto por la conciencia, si no confesara que, haciendo versos por la pena de Francisco Cândido Xavier, los poetas de que él es intérprete presentan las mismas características de inspiración y de expresión que los identificaban en este planeta. Los temas abordados son los que los preocuparon en vida. El gusto es el mismo y el verso obedece, ordinariamente, a la misma pauta musical. Suelto e ingenuo en Casimiro, ancho y sonoro en Castro Alves, sarcástico y variado en Junqueiro, fúnebre y grave en Antero, filosófico y profundo en Augusto de los Ángeles.

Monteiro Lobato, por su parte, afirmó: Si el hombre realmente produjo por cuenta propia todo lo que viene del “Parnaso” entonces él puede estar en cualquier Academia, ocupando cuántos sillones quiera...

Mientras eso, el fundador de la Academia Rio-Grandense de Letras, Zeferino Brasil, sentenciaba: o esas poesías son de hecho de los autores citados y fueron realmente transmitidas del Más Allá al médium que las psicografó, o el Sr. Francisco Xavier es un poeta extraordinario, genial mismo, capaz de producir e imitar asombrosamente los mayores genios de la poesía universal.

A pesar de todas las evaluaciones positivas, la obra está lejos de cualquier unanimidad. Otros analistas apuntan la existencia de versos y construcciones pobres, sonetos mal hechos. Una de las críticas más comunes fue sintetizada en 1971, en la Revista Realidad, por el crítico literario Léo Gilson Ribeiro: Una cosa es clara: Cuando el 'espíritu' sube, su calidad desciende. Es inconcebible que grandes creadores de nuestra lengua, tras la muerte queden por ahí parloteando el argot espirita.

Exagero o no, el hecho es que muchos textos atribuidos a escritores muertos parecen medio “pasados” aún. Si en algunos la semejanza es notable, a ejemplo de Augusto de los Ángeles y Guerra Junqueiro, en otros la diferencia también llama la atención... Basta ver los sonetos de Alberto de Oliveira mediumnico, bien distantes de la perfección técnica que hizo el parnasiano famoso. O aún los atribuidos la Antero de Quental, con construcciones mucho más simples del que aquellas que marcaron el estilo del poeta portugués.

Sin la pretensión de concluir el debate, dejamos aquí sólo uno de los sonetos del Parnaso para análisis. Se llama Jesus ou Barrabás? ("¿Jesus o Barrabás?", en español), y trae la firma del Príncipe de los Poetas Brasileños, Olavo Bilac. Si es de él mismo, no podemos decir. Pero que se trata de una de las más bellas piezas ya atribuidas a Espíritus, ah, se trata! Pincha aquí para leer!