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sábado, 23 de fevereiro de 2013
Os Anos são Degraus
Os anos são degraus; a vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.
São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre, após esta ansiedade imensa,
uma porta fechada
– e nada mais?
(Fernanda de Castro in Asa no Espaço, pp. 73 e 74, Lisboa, 1955)
terça-feira, 4 de maio de 2010
Mais
Um Manuscrito sobre Espiritualidade?
Nesta sexta, dia 7, a cantora Sandy Leah lança oficialmente seu primeiro CD solo, após o fim da longa parceria com o irmão Júnior Lima. Porém, para os fãs inveterados, há pouca novidade a esperar. É que, ao longo das últimas semanas, o CD Manuscrito foi sendo disponibilizado faixa a faixa para venda e, logo a seguir, para ouvir gratuitamente na Rádio UOL.
E o que se pôde ouvir ao longo das treze faixas do novo álbum? Uma certa guinada em termos de estilo, de sonoridade e, o que mais nos chamou a atenção, de temática. Sabe aquele romantismo juvenil que notabilizou o trabalho da Sandy? Ele ainda aparece, mais maduro, agora que ela cresceu e casou. Só que a paixão divide espaço também com letras que tratam de questões existenciais e... espirituais!
Sim, essa sim nos pareceu a grande novidade do novo trabalho. A idéia de caminhada, de busca, de dar passos perpassa toda a obra, revelando frequentemente uma certeza intuitiva a respeito daquilo que É, que está além da superfície. A exemplo da canção Quem eu sou:
Deixo o sol guiar o meu olhar / E assim eu vou / Procurando nos meus sonhos / Descobrindo quem realmente eu sou / Inventando um caminho / Libertando quem realmente eu sou.
E quando falamos de caminhar com uma "certeza intuitiva", a referência é a algo explicitado com todas letras em músicas como Dedilhada:
E os passos vão / Firmes no caminho / Em direção ao que não foi escrito / Intuição sopra em meu ouvido / Escuto e vou.
Há medo, dor e insegurança, mas nada capaz de se sobrepor ao otimismo de quem enxerga um porto seguro além, como fica claro na letra de Tempo:
E todo o medo, desespero e a alegria / E a tempestade, a falsidade, a calmaria / E os seus espinhos e o frio que eu sinto / Isso vai passar também.
Muitas vezes, as letras jogam com a ambiguidade, com a multiplicidade de sentidos, com referências que tanto poderiam ser à Divindade quanto à pessoa amada. É o que lê tanto em O que faltou ser:
Não me escondo do medo de não me reerguer / Do silêncio de uma vida sem você / De tudo o que faltou ser.
Quanto na que traz o sugestivo título de Perdida e salva:
E apesar de ser tão imenso / Cabe em mim / O mundo que você me deu / Não há sensação melhor não ha / Sinto estar perdida e salva.
Contudo, para além de toda a polissemia, há uma música que nos parece carregada demais de referências à espiritualidade para que a idéia de ser apenas "mais uma de amor" resista a um olhar mais atento. É a música de trabalho, Pés cansados.
Ela traz a idéia da ovelha desgarrada que se depara com as dificuldades de caminhar sem Pastor (Fiz mais do que posso, ví mais do que aguento e a areia nos meus olhos é a mesma que acolheu minhas pegadas); da impossibilidade de uma vida plena sem Deus (Eu lutei contra tudo, eu fugi do que era seguro, descobrí que é possível viver só, mas num mundo sem verdade); e, finalmente, do arrependimento, seguido do retorno à Fonte (Depois de tanto caminhar, depois de quase desistir, os mesmos pés cansados voltam pra você).
Ainda ficou em dúvida?! Pois medite sobre o que acabou de ler e assista a esse belo clipe não-oficial de Pés Cansados:
Nesta sexta, dia 7, a cantora Sandy Leah lança oficialmente seu primeiro CD solo, após o fim da longa parceria com o irmão Júnior Lima. Porém, para os fãs inveterados, há pouca novidade a esperar. É que, ao longo das últimas semanas, o CD Manuscrito foi sendo disponibilizado faixa a faixa para venda e, logo a seguir, para ouvir gratuitamente na Rádio UOL.
E o que se pôde ouvir ao longo das treze faixas do novo álbum? Uma certa guinada em termos de estilo, de sonoridade e, o que mais nos chamou a atenção, de temática. Sabe aquele romantismo juvenil que notabilizou o trabalho da Sandy? Ele ainda aparece, mais maduro, agora que ela cresceu e casou. Só que a paixão divide espaço também com letras que tratam de questões existenciais e... espirituais!
Sim, essa sim nos pareceu a grande novidade do novo trabalho. A idéia de caminhada, de busca, de dar passos perpassa toda a obra, revelando frequentemente uma certeza intuitiva a respeito daquilo que É, que está além da superfície. A exemplo da canção Quem eu sou:
Deixo o sol guiar o meu olhar / E assim eu vou / Procurando nos meus sonhos / Descobrindo quem realmente eu sou / Inventando um caminho / Libertando quem realmente eu sou.
E quando falamos de caminhar com uma "certeza intuitiva", a referência é a algo explicitado com todas letras em músicas como Dedilhada:
E os passos vão / Firmes no caminho / Em direção ao que não foi escrito / Intuição sopra em meu ouvido / Escuto e vou.
Há medo, dor e insegurança, mas nada capaz de se sobrepor ao otimismo de quem enxerga um porto seguro além, como fica claro na letra de Tempo:
E todo o medo, desespero e a alegria / E a tempestade, a falsidade, a calmaria / E os seus espinhos e o frio que eu sinto / Isso vai passar também.
Muitas vezes, as letras jogam com a ambiguidade, com a multiplicidade de sentidos, com referências que tanto poderiam ser à Divindade quanto à pessoa amada. É o que lê tanto em O que faltou ser:
Não me escondo do medo de não me reerguer / Do silêncio de uma vida sem você / De tudo o que faltou ser.
Quanto na que traz o sugestivo título de Perdida e salva:
E apesar de ser tão imenso / Cabe em mim / O mundo que você me deu / Não há sensação melhor não ha / Sinto estar perdida e salva.
Contudo, para além de toda a polissemia, há uma música que nos parece carregada demais de referências à espiritualidade para que a idéia de ser apenas "mais uma de amor" resista a um olhar mais atento. É a música de trabalho, Pés cansados.
Ela traz a idéia da ovelha desgarrada que se depara com as dificuldades de caminhar sem Pastor (Fiz mais do que posso, ví mais do que aguento e a areia nos meus olhos é a mesma que acolheu minhas pegadas); da impossibilidade de uma vida plena sem Deus (Eu lutei contra tudo, eu fugi do que era seguro, descobrí que é possível viver só, mas num mundo sem verdade); e, finalmente, do arrependimento, seguido do retorno à Fonte (Depois de tanto caminhar, depois de quase desistir, os mesmos pés cansados voltam pra você).
Ainda ficou em dúvida?! Pois medite sobre o que acabou de ler e assista a esse belo clipe não-oficial de Pés Cansados:
segunda-feira, 1 de março de 2010
Idéias
E a literatura dos espíritas, cadê?
Vamos pensar um pouco sobre literatura espírita... Quantos romancistas espíritas você conhece? E cronistas? E contistas? Supondo que conheça algum, ele possui livros publicados com trabalhos literários de cunho espírita? Novamente supondo que sim, você já comprou, leu ou pelo menos ouviu comentários sobre alguma das obras desse autor?



É até possível, ainda que altamente improvável, encontrar alguém capaz de responder "sim" a todas essas perguntas. Certamente, não por falta de quem leia, já que a literatura espírita movimenta anualmente milhões de reais só no Brasil. São centenas de novos títulos lançados todos os anos, fora os relançamentos e as reedições de obras consagradas.
O problema é que as obras literárias propriamente ditas (nem de doutrinação, nem de estudo, nem de pesquisa) parecem ficar a cargo exclusivo dos Espíritos. Livros com textos atribuídos a escritores desencarnados, com contos, crônicas e romances, chegam a rodo às livrarias espíritas e não-espíritas!
Mas quando se trata de publicar uma bela narrativa vazada da sensibilidade de um Espírito encarnado, recheada de sua vivência como adepto do espiritismo e capaz de sensibilizar outras almas, aí parece que o processo trava. Será na inspiração dos escritores espíritas? Será no estímulo para escrever? Ou será no interesse das editoras...?
Seja como for, tivemos oportunidade de encontrar ontem mesmo um bela evidência de que há quem escreva - e escreva bem - deixando vazar sentimentos e experiências ligadas à vivência espírita. Com bom humor, maturidade e sensibilidade.
Essas características nós identificamos no blog Perfume Espiritual, uma página cheirosa no nome e na primeira impressão que os frascos floridos do cabeçalho causam ao leitor. O blog é assinado por Bia Molica, ou simplesmente Bia.
São textos reflexivos, boa música, belas imagens e, o que nos chamou especialmente a atenção, crônicas do cotidiano espírita. Como sugestão, deixamos esta aqui: http://perfumeespiritual.blogspot.com/amediumquebatianomarido.html, sobre a curiosa mediunidade de socofonia...
À autora, desejamos que continuem as boas inspirações e que se mantenha a perseverança na tarefa abraçada! Com a certeza da presença de Deus em toda ação nascida do Bem e a Ele direcionada.
PS: Deixamos de lado intencionalmente a poesia feita por espíritas, que recebe um pouco mais de valor que as outras formas literárias. Entre os grandes trabalhadores dessa seara, não poderíamos deixar de destacar o cantador paraibano Merlânio Maia, que mantém blog próprio: http://merlaniomaia.blogspot.com/, o poeta e compositor cearense Tarcísio Lima: http://tarcisiojoselima.blogspot.com e o mineiro Gladston Lage, que, entre outros trabalhos, traduziu em 72 sonetos a obra Paulo e Estevão.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Diálogos
Motivação espírita, inspiração budista
No último texto, pudemos apreender mais uma lição do Educador de Almas francês que se notabilizou sob o pseudônimo de Allan Kardec. De pluralidade, interdisciplinaridade e disposição para aprender com as diferenças. A lição do codificador da doutrina espírita, por sua vez, nos remeteu a outra, extremamente semelhante, só que bem mais antiga.
É ela que inaugura uma nova seção no blog Espírito de Arte, intitulada Diálogos. A partir de agora, este espaço virtual vai abrigar também reflexões e obras de arte baseadas no diálogo entre o conhecimento espírita e outras tradições espirituais.
O poema que se segue abaixo é uma adaptação em versos da lição sobre A Preservação da Verdade contida na sutta (algo como "capítulo") 95, do Majjhima Nikaya, segunda coleção de discursos atribuídos a Sidarta Gautama que compõem as Escrituras budistas. Um ensinamento universal, acima de tudo, mas que converge excepcionalmente para a disposição de espírito daquele que se propõe a vivenciar a proposta espírita.

Vagava Buda, por Kosala, um dia,
Seguido por quinhentos aprendizes
Até que achou num vilarejo o Bosque
Dos Devas, os Espíritos felizes.
Parou ali, sem grandes pretensões
E viu chegarem sacerdotes brâmanes,
Que logo se sentaram a conversar
Em busca de aprender o Dharma Búdico
Um deles, bem mais jovem que os demais,
Chamou de pronto a atenção do Buda.
De olhar no Mestre, Kaphatika expôs,
Acerca da Verdade, sua dúvida:
"Se, conhecendo mantras e Escrituras,
Os brâmanes julgassem ter achado
Maior Verdade que a do mundo inteiro,
O que dirias tu, Iluminado?"
"Acaso já encontraste, Kaphatika,
Um brâmane ou Mestre que julgasse
A fé que tem melhor que as outras todas
E a tudo diferente desprezasse?
"Se assim houvesse ao menos um, te digo,
Seria ele como um cego em fila
Ao lado de outros cegos, convencidos
De verem tudo aquilo que cintila
"E digo mais: se alguém, por fé, idéias,
Razão, por tradição ou por vontade,
Julgasse possuir a Luz inteira,
Esse alguém faltaria com a Verdade"
"Explica, então: o que esperar do sábio,
De nobre pensamento e mente clara,
Em busca da Verdade, quando queira,
Em vez de suprimi-la, preservá-la?"
"Escuta, pois, o que te digo agora:
Aquele que tem fé no que acredita
E guarda convicção na fé que tem
Mas a ninguém, por isso, infelicita,
"Nem julga-se mais certo que os demais,
Nem vê no diferente a falsidade,
Respondo a ti, ó, Kaphatika, é este,
E este só quem preserva A Verdade."
domingo, 7 de fevereiro de 2010
A curiosa biblioteca espírita de Kardec
Algumas semanas atrás, tivemos oportunidade de retomar o rastro de uma obra há muito esquecida. Por nós e por quase todos os espíritas do mundo. Ou você já ouviu falar do Catálogo racional: obras para se fundar uma Biblioteca Espírita, último livro escrito e publicado por ninguém mais, ninguém menos, que Allan Kardec?
Certamente, não se trata de uma "obra básica" equiparável em importância a O Livro dos Espíritos ou ao Evangelho segundo o Espiritismo. Contudo, em algumas dezenas de páginas, é possível apreender lições valiosas. Nelas, Kardec nos traz exemplos concretos de como entendia a relação a ser estabelecida entre o espiritismo e a cultura geral.
E revela a cada página uma visão incrivelmente aberta, plural e rara de se encontrar hoje em dia entre nós. Dizemos "nós" porque também fomos surpreendidos com a indicação de textos teatrais, partituras musicais, obras materialistas, niilistas, anti-espíritas, espiritólicas e até dos controversos Quatro Evangelhos de J.B. Roustaing...
A primeira seção do Catálogo é curta e sem surpresas. Ela é dedicada às obras fundamentais da doutrina - aquelas escritas por Kardec. Toda a Codificação, mais O que é o espiritismo?, Revista Espírita, O caráter da revelação espírita, Viagem espírita em 1862 e O espiritismo na sua expressão mais simples estão indicadas ali.
A segunda, bem mais extensa, guarda as primeiras indicações inusitadas. Ela reúne obras escritas sob influência do espiritismo, umas mediúnicas, outras não, que Kardec julgava "complementares da doutrina", em suas próprias palavras. Umas das primeiras sugestões é a do livro Revelações de além-túmulo, compilado por Henry Dozon, a partir de evocações que fazia por intermédio da esposa. Na foto abaixo, pode-se ler a descrição que o codificador faz da obra.
É ou não é o que hoje chamaríamos de um texto espiritólico, essa categoria desprezada tão frequentemente hoje por alguns companheiros espíritas?! Mas essa é só pra esquentar... Logo à frente vem Estudos e sessões espíritas, organizado por um "doutor Houat", que traz tão somente instruções sobre homeopatia obtidas mediunicamente. Detalhe: nada de psicografia. O doutor passou um ano realizando sessões de tiptologia, aquele velho toc toc na mesa a indicar letras e números, para compor a obra... Um sujeito paciente, sem dúvida!
A seguir... O próprio, quase inominável para alguns: Roustaing e seus Evangelhos (Os quatro), seguidos dos mandamentos, explicados em espírito e em verdade pelos evangelistas, como se vê abaixo:
A despeito da ressalva e da indicação de leitura do artigo de A Gênese que refuta a teoria do corpo fluídico, Kardec não deixa de indicar a obra. Provavelmente por julgar que ela tem uma contribuição a oferecer, independente do ponto duvidoso que defende. Mais ou menos como o livro Dos Espíritos e de suas Manifestações Fluídicas, de Jules de Mirville, obra que antecedeu O Livro dos Espíritos na defesa da explicação espiritual para as mesas girantes... Só que atribuindo tudo ao Capeta e seus companheiros. A explicação que Kardec dá abaixo resume a postura que o movia, centrada no fundo, mais que na forma, e alheia a preciosismos.
Ainda nesta seção, o codificador dedica capítulos exclusivos à poesia e à música. Encontramos ali a indicação de três precursores do Parnaso de Além-Túmulo, como se vê na foto.
Só que a parte mais interessante fica na seção musical. Ao lado de duas partituras mediúnicas, atribuídas respectivamente aos Espírito de Bach e Mozart, temos duas partituras compostas por espíritas, intituladas Cantata Espírita, com acompanhamento para piano, Herczka e Toussaint, eRecordação Espírita, capricho noturno para piano por C. Constant. Peças que podem ser consideradas genuinamente como as duas primeiras composições musicais espíritas feitas na história! Infelizmente, não nos chegaram as partituras propriamente ditas...
A seguir, vem a terceira sessão, Obras Realizadas Fora do Espiritismo, por meio da qual Kardec mostra um pouco mais de sua abertura para o mundo. São cerca de cem obras históricas, filosóficas e científicas, além de romances e textos teatrais, totalmente independentes do espiritismo, mas que apresentam uma boa possibilidade de diálogo com a doutrina.
Destacamos A Bíblia na Índia, de Louis Jacolliot, que versa sobre as relações entre cristianismo e hinduísmo; Buda e sua religião e Maomé e o Alcorão, ambos de Barthélémy Saint-Hilare, focados respectivamente nos ensinamentos budistas e muçulmanos; O Protestantismo Liberal, do pastor Bost; e Viagens à China, do missionário vicentino Evariste Huc.
E em meio aos infindáveis debates sobre se tal romance é ou não espírita, se é "real" ou "fantasioso" e se merece ou não figurar em livrarias espíritas, vejamos o que disse Kardec antes de indicar obras de George Sand, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Alexandre Dumas e Balzac:
Acho que o recado de tolerância e foco nas contribuições positivas, para além das diferenças aumentadas à base de lupa e microscópio, não poderia ser mais claro...
Por fim, chegamos à última e mais inesperada de todas as seções, intitulada Obras contra o Espiritismo. Já imaginou uma biblioteca espírita moderna, oferecendo ao público Deus, um delírio, de Richard Dawkins ou O mundo assombrado por demônios, de Carl Sagan?!
Pois Kardec não só estimulava a presença de obras desse náipe em sua biblioteca espírita, como explicava em alto e bom tom o porquê:
Proibir um livro é dar mostras de que o tememos. O Espiritismo, longe de temer a divulgação dos escritos publicados contra ele e interditar a sua leitura aos adeptos, chama a atenção destes e do público para tais obras, a fim de que possam julgar por comparação.
É, ainda há um longo caminho pela frente até que consigamos nos equiparar a essa mentalidade aberta, tolerante e cooperativa... De 140 anos atrás! E àquela de quase dois mil anos, então...? Deixa pra lá...
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Idéias
Nárnia, Avatar e Deus em nós
Recentemente, tive uma dupla satisfação: a primeira foi terminar de ler o volume único de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, verdadeira obra básica da literatura fantástica universal. A segunda foi assistir no cinema a Avatar 3D, que deverá entrar na seleta lista das produções que servem para dividir a história do cinema em antes e depois delas.
Em comum, ambas mostram mundos paradisíacos localizados fora do nosso, mas igualmente ameaçados pelo desejo de posse dos seres humano. É curioso notar que as histórias foram escritas num intervalo de quase meio século e se desenrolam com uma diferença temporal superior a 200 anos. A de Nárnia se passa na década de 1940. A de Avatar, em 2151.
E ambas retratam a mesma incontinência possessiva do homem, capaz de passar por cima de qualquer critério moral para satisfazer a própria gana.
Ao mesmo tempo, as duas narrativas deixam claro que há homens e mulheres dispostos a nadar contra a maré. Capazes de superar as próprias limitações, os condicionamentos culturais, sociais, morais, e sacrificar a própria vida, se for preciso, por aquilo que vale a pena lutar neste ou em qualquer dos outros mundos do Universo.
Tanto em Nárnia quanto em Avatar esses resistentes são pessoas que trazem, de berço ou de algum acontecimento da vida, uma forte ligação com a espiritualidade. É gente que leva a vida à frente, com todos os desafios do cotidiano, sabendo que tudo acontece sob a sábia regência de uma Força Superior. Pessoas que, a despeito de todas as dificuldades, se dispõem a lutar até o limite das forças, se o que está em jogo é a defesa da Vida, da Liberdade, do Respeito e da Dignidade. Se o que está em jogo é a defesa daquilo que É, diante da ameaça de forças que, apesar de transitórias, se apresentam ameaçadoras.
A metáfora com a nossa vida não poderia ser mais perfeita: todos nós que caminhamos sobre a Terra, sozinhos ou em conjunto, não passamos de "forças transitórias". Somos capazes dos atos mais magníficos e também dos mais abjetos. Podemos criar, colaborar, melhorar tanto quanto destruir, degradar e aniquilar o que chega ao alcance das mãos. Mas só até o limite do que a Força Eterna permite.
Àquelas que compreenderam o porquê de estarmos aqui, cabe lutar até a última réstia de energia pelo Valores Imortais. Afinal, a superação da materialidade, da finitude e do apego não vem com lutas esporádicas e pequenas benesses espalhadas a bel-prazer. O objetivo final da existência só se alcança por "aquele que perseverar até o fim". Isso porque ser capaz de chegar até o fim lutando, além da preguiça, da desesperança, da dor e do cansaço, é algo que só alcança quem já age não mais por conta própria, mas movido pelo Sopro Divino, em profunda sintonia com o Criador.
E aqueles que se permitem eclipsar a esse ponto, suplantando interesses pessoais e desejos egocêntricos em prol da ação plena do Eterno, nada têm a temer. Porque quando já não restarem para estes as próprias forças, A Força propriamente dita sempre vem terminar o serviço. Como fez Eywa entre os Na'vi... Como Aslam entre os narnianos ... e como o próprio Deus, ainda e sempre, entre nós!
Para uma reflexão mais detalhada sobre Avatar e Espiritualidade sugiro fortemente este belo artigo no Orkut.
Romário Fernandes
Recentemente, tive uma dupla satisfação: a primeira foi terminar de ler o volume único de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, verdadeira obra básica da literatura fantástica universal. A segunda foi assistir no cinema a Avatar 3D, que deverá entrar na seleta lista das produções que servem para dividir a história do cinema em antes e depois delas.Em comum, ambas mostram mundos paradisíacos localizados fora do nosso, mas igualmente ameaçados pelo desejo de posse dos seres humano. É curioso notar que as histórias foram escritas num intervalo de quase meio século e se desenrolam com uma diferença temporal superior a 200 anos. A de Nárnia se passa na década de 1940. A de Avatar, em 2151.
Ao mesmo tempo, as duas narrativas deixam claro que há homens e mulheres dispostos a nadar contra a maré. Capazes de superar as próprias limitações, os condicionamentos culturais, sociais, morais, e sacrificar a própria vida, se for preciso, por aquilo que vale a pena lutar neste ou em qualquer dos outros mundos do Universo.
Tanto em Nárnia quanto em Avatar esses resistentes são pessoas que trazem, de berço ou de algum acontecimento da vida, uma forte ligação com a espiritualidade. É gente que leva a vida à frente, com todos os desafios do cotidiano, sabendo que tudo acontece sob a sábia regência de uma Força Superior. Pessoas que, a despeito de todas as dificuldades, se dispõem a lutar até o limite das forças, se o que está em jogo é a defesa da Vida, da Liberdade, do Respeito e da Dignidade. Se o que está em jogo é a defesa daquilo que É, diante da ameaça de forças que, apesar de transitórias, se apresentam ameaçadoras.A metáfora com a nossa vida não poderia ser mais perfeita: todos nós que caminhamos sobre a Terra, sozinhos ou em conjunto, não passamos de "forças transitórias". Somos capazes dos atos mais magníficos e também dos mais abjetos. Podemos criar, colaborar, melhorar tanto quanto destruir, degradar e aniquilar o que chega ao alcance das mãos. Mas só até o limite do que a Força Eterna permite.
E aqueles que se permitem eclipsar a esse ponto, suplantando interesses pessoais e desejos egocêntricos em prol da ação plena do Eterno, nada têm a temer. Porque quando já não restarem para estes as próprias forças, A Força propriamente dita sempre vem terminar o serviço. Como fez Eywa entre os Na'vi... Como Aslam entre os narnianos ... e como o próprio Deus, ainda e sempre, entre nós!Para uma reflexão mais detalhada sobre Avatar e Espiritualidade sugiro fortemente este belo artigo no Orkut.
Romário Fernandes
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Mais
Um mito musical da Criação

E aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso, desdobrando diante de seus olhos imagens ainda mais grandiosas e esplêndidas do que havia revelado até então; e a glória de seu início e o esplendor de seu final tanto abismaram os Ainur, que eles se curvaram diante de Ilúvatar e emudeceram.
Disse-lhes então Ilúvatar: - A partir do tema que lhes indiquei, desejo agora que criem juntos, em harmonia, uma Música Magnífica. E, como eu os inspirei com a Chama Imperecível, vocês vão demonstrar seus poderes ornamentando esse tema, cada um com seus próprios pensamentos e recursos, se assim o desejar. Eu porém me sentarei para escutar; e me alegrarei, pois, através de vocês, uma grande beleza terá sido despertada em forma de melodia.
E então as vozes dos Ainur, semelhantes a harpas e alaúdes, a flautas e trombetas, a violas e órgãos, e a inúmeros coros cantando com palavras, começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar, criando uma sinfonia magnífica; e surgiu um som de melodias em eterna mutação, entretecidas em harmonia, as quais, superando a audição, alcançaram as profundezas e as alturas; e as moradas de Ilúvatar encheram-se até transbordar; e a música e o eco da música saíram para o Vazio, e este não estava mais vazio.

Assim começou o mundo... Pelo menos, segundo a descrição que abre O Silmarillion, obra póstuma do filologista inglês JRR Tolkien, conhecido na História da Literatura Universal como o autor da saga O Senhor dos Anéis. A obra conta a história resumida do universo tolkieniano, desde a Criação até alguns séculos antes dos eventos narrados em A Sociedade do Anel, primeira parte da trilogia que consagrou o escritor.
O que nos chama a atenção aqui, sem dúvida, é o papel atribuído à Música na Criação. Nesse mito contemporâneo, não se trata da Palavra Criadora a atribuir sentido ao Caos reinante (Fiat lux!). Não temos uma verbalização racional na raiz do Cosmos, mas uma construção coletiva baseada nos sentimentos que o tema poderoso apresentado pelo Criador inspirou nas primeiras criaturas.

Relata o mentor que a gênese terrena foi conduzida por Espíritos designados e orientados por Jesus, representante direto de Deus no planeta. O mais interessante na narrativa de Tolkien é que tudo se fez a partir da ressonância que O Tema teve nas almas dos Ainur. Já pensou, a Divina Motivação de quem se vê incumbido pelo Criador para elaborar e cuidar de um mundo? Um dia a gente chega lá...
De qualquer forma, guardadas as devidas proporções, nada muito diferente do que uma boa composição musical, escrita e interpretada com a alma, pode inspirar noutras almas que tenham oportunidade de partilhar desse momento. Se soubéssemos explorar a contento o potencial dessa ferramenta divina que é a Música... O mundo seria outro!
Pra quem quer saber como continua a história, o link é este aqui.
sábado, 17 de outubro de 2009
A Questão Espiritual em Harry Potter - Parte 3
Os mortos não deixam de existir. Continuam a ter consciência de si. Podem sentir o mundo a sua volta. Podem interagir uns com os outros e também com os que ficaram. E conseguem até dar alguns pitacos no rumo das coisas por estas bandas... Será uma síntese das idéias espíritas? Não exatamente. Esse é apenas o resumo das conclusões a que chegamos nos dois primeiros artigos sobre espiritualidade em Harry Potter.
No primeiro deles, lançamos a proposta de esboçar uma teoria espiritualista sobre o universo mágico elaborado por JK Rowling. A partir, é claro, das inúmeras pistas que obra e autora têm a oferecer sobre o tema. No segundo texto, damos prosseguimento à discussão, ampliando-a para a própria concepção do enredo, que, certo dia, "por quatro horas seguidas", "fervilhou no cérebro" da escritora, segundo seu próprio relato.

Agora, vamos no deter no último livro da série. O magistral Harry Potter and the Deatlhy Hallows, lançado no Brasil como As Relíquias da Morte. Ao mesmo tempo em que reafirma as conclusões dos artigos anteriores, ele lança pistas novas e intrigantes sobre a questão espiritual.
Naturalmente, daqui em diante o texto fala claramente sobre o enredo do livro. Portanto, quem ainda não leu e não gosta de saber antecipadamente das coisas, aproveite para reler os primeiros artigos e não prossiga neste!

Já no título, a confirmação do papel central exercido pelo problema da morte na trama. As tais relíquias nada mais são do que objetos que permitiriam ao possuidor "driblar" a morte. Uma capa de invisibilidade, imune a qualquer tipo de dano, capaz de ocultar o dono dos perigos. Uma varinha mágica que torna seu proprietário virtualmente invencível, portanto, imune a ameaças mortais. E uma pedra que consegue trazer de volta os mortos, preenchendo, ao menos, a lacuna deixada pela separação.
No mundo dos bruxos, esses objetos eram considerados lendários, pertencentes às fábulas infantis. Mas ao longo da trama, percebe-se que eles existem sim e, ironicamente, já levaram incontáveis aventureiros à morte. Fosse por ignorar os perigos concretos e imediatos no afã de encontrá-los, fosse por julgar-se, de fato, "senhor da morte" ao possui-los, e acabar também se descuidando de outras ameaças.
Para nossos propósitos, é interessante nos deter em uma das relíquias: a Pedra da Ressurreição. É ela que permite um dos momentos mais emocionantes - e transcendentais - de toda a trama. Quando Harry mais precisa, quatro pessoas "mortas" - em vida, extremamente importantes para ele - como que se materializam na frente do herói. "Menos substanciais que corpos vivos, e bem mais do que fantasmas, eles se moveram em sua direção, em cada face, o mesmo sorriso amoroso", descreve Rowling.

E naquele momento o aconselharam, reanimaram e garantiram a força que faltava para Harry cumprir a dolorosa missão que teria pela frente. O detalhe curioso é que, quando perguntou se outros não poderiam vê-los, ele ouviu a seguinte resposta: "Somos parte de você, invisíveis para outras pessoas". Uma pedra que aguça as faculdades mediúnicas do possuidor? A autora prefere deixar a questão meio nebulosa...
Da mesma forma que faz num momento à frente, este sim, o mais transcendental de toda a série! Ao tomar um golpe, que deveria ser mortal, Harry se vê numa espécie de limbo. Acorda lenta e desorientadamente, os sentidos voltando pouco a pouco a funcionar. À medida que toma consciência de si, sua mente começa a dar forma à imprecisão do espaço que o cerca.

Ao perceber que está nu, ele se incomoda, e deseja estar vestido. "Mal o desejo se formou na mente e apareceram roupas a uma pequena distância", relata a autora. A elaboração do meio não pára. "Harry se virou lentamente para o local, e os arredores pareciam se inventar ante os seus olhos", explica. É como se ele estivesse formando aquele espaço mentalmente, de forma instintiva, sem se dar conta, com base nas necessidades que vai experimentando. Qualquer semelhança com um certo Laboratório do Mundo Invisível não há de ser mera concidência...
Quando finalmente encontra alguém, o espanto: "Mas você está morto"! "Sim", responde o interlocutor. "Então... eu também estou?", pergunta. "Essa é a questão, não é?", pondera o Espírito, completando: "No geral, meu garoto, acredito que não".
Pois é! Harry Potter tem uma Experiência de Quase-Morte! Além de uma excelente oportunidade para ponderar sobre a vida, debater questões complexas e descobrir informações que desconhecia. O interlocutor explica que ele tem a chance de escolher entre retornar ou seguir. Mas para onde? "Em frente", como quem prefere desconversar.
A escolha? A que justifica o valor quase divino do sacrifício, do devotamento e da abnegação. Um assunto moral, mas com implicações espirituais, que vai ser o tema central do nosso quarto e último artigo sobre A Questão Espiritual em Harry Potter!
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Idéias
A Arte na Libertação do Homem
Trazemos hoje para o blog uma contribuição e tanto para nossas discussões sobre Arte e Espiritualidade, assinada pela professora Márcia Fusaro, da Universidade Nove de Julho (SP).
A autora é doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP, atua profissionalmente como tradutora e parece ter iniciado uma coluna sobre nossa temática central no site do Centro de Estudos Filosóficos Laboratório Evolutivo (Cefle).
Se ela foi além do primeiro artigo, não saberíamos precisar. O certo é que este que se lê abaixo nos chamou suficientemente a atenção para publicá-lo aqui.
O bom artista conhece as facetas humanas melhor do que ninguém. Cada atitude, cada gesto, cada consagração e derrota humana é por ele captado e expressado em seu mais íntimo sentido. Mas ao assumir seu papel de revelador da alma do mundo, o artista investe no processo seu mais ousado vigor de "ver além", retratando na arte a emanação do ser, da essência espiritual. Exatamente por isso ele nem sempre é compreendido.Os grandes artistas, verdadeiros magos da expressão, provam que a sensibilidade aliada ao talento torna possível "dizer o indizível", "alcançar o inalcançável". Espelho da própria busca do ser espiritual.
A arte também traz em si formas de meditação e de contemplação. É um refinamento do espírito e para o espírito. Arte é a manifestação de uma essência primeiro meditada pelo artista, depois expressada em uma forma estética, para então ser contemplada não apenas por seu próprio criador, mas por outros seres buscadores de suas próprias essências.
Quando digo arte, considero as diferentes formas de expressão artística humana, determinadas por uma estética específica, mas voltadas essencialmente à busca de uma transcendência.
Para estrear nossa coluna sobre arte e espiritualidade, ninguém melhor do que o poeta-místico inglês William Blake (1757-1827), um artista para quem a noção de espiritualidade era tão íntima quanto a própria arte.
Sua obra mais importante em prosa The Marriage of Heaven and Hell (O casamento do céu e do inferno) baseia-se nos escritos de Emanuel Swedenborg (1688-1772), outro grande intelectual e místico do século XVIII.
Para Blake, completamente incompreendido e tido por muitos como louco em sua época, o uso da imaginação em contraposição ao cientificismo cada vez mais exarcebado do século XVIII representou a luta artística de toda uma vida. Poeta, artista plástico e, acima de tudo, observador atento do mundo, Blake conseguiu com sua arte contrapor-se a seu tempo, rebelando-se contra o materialismo presente em seus dias. Levado por sua extrema ousadia de artista engajado, chega a declarar na carta ao amigo e intelectual Thomas Butts: "Que Deus nos guarde de ver com um só olho e de dormir o sono de Newton".Evidentemente que as descobertas de Isaac Newton sobre a Física foram de extrema importância, mudando um quadro teórico que se estendia desde Aristóteles. Mas para o artista rebelde, William Blake, as descobertas da ciência, por mais brilhantes que fossem, não eram suficientes para explicar os processos da natureza e a alma humana, muito mais complexos do que o cientista é capaz de conceber.
Em sua ânsia de romper e de transcender os limites impostos por seu tempo, querendo manifestar-se como espírito livre que era, Blake tenta fazer "caber o infinito na palma de sua mão", e consegue:
Ver um mundo em um grão de areia
E o Paraíso em uma flor silvestre
Segurar o infinito na palma de sua mão
E a eternidade em uma hora
William Blake sabia como ninguém que somente a arte, com sua maior liberdade de expressão, é capaz de tornar possível a manifestação da tendência libertária do espírito. E soube mostrar isso da melhor forma que um artista pode fazê-lo: com sua própria arte.
Márcia C. F. Fusaro
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
A Questão Espiritual em Harry Potter - Parte 2
Falávamos há algumas semanas sobre a espiritualidade no maior clássico contemporâneo da literatura infanto-juvenil. Esboçamos as primeiras linhas de uma teoria espiritualista potteriana, a partir de dados fornecidos pela própria obra: a certeza na imortalidade da alma; as possibilidades concretas de contato entre quem "se foi" e quem permanece vivo; e a curiosa condição dos fantasmas naquele universo.
É inclusive o mais interativo deles quem explica a Harry que "muito poucos bruxos escolhem esse caminho", a saber, o de se tornar um fantasma. Mas por quê? Porque, de modo geral, os bruxos preferem "seguir". "Eu tinha medo de partir. Escolhi ficar para trás. Às vezes penso se não deveria... Bem, isso não é cá nem lá... De fato, eu não estou cá nem lá... Eu não sei nada sobre os segredos do Além, Harry, porque escolhi minha fraca imitação de vida a ele", desabafa Near-Headless Nick.
Eis o depoimento amargurado de um fantasma da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts sobre a continuidade da existência. Ele sabe que a vida não pára com o coração. E o próprio Nick é a prova "viva" disso. Mas ele também sabe que o Além é muito mais do que permanecer ao lado dos vivos, caminhando vagamente por estas bandas. Que o caminho correto é seguir, ir em frente, ainda que não esteja muito certo de para onde...
De fato, JK Rowling nunca se aprofundou nesse ponto. Se a existência do Além é clara, a forma dele é imprecisa no mundo de Harry Potter. Uma característica coerente, acreditamos, com a visão de mundo da autora. É que ela, anglicana de nascença, à moda do nosso católico não-praticante, é daquelas pessoas que apenas crêem em algo mais. A educação religiosa foi suficiente para garantir na alma da escritora uma fé na transcendência, na continuidade da vida.
Mas, e em detalhes? Como se daria esse processo na concepção dela? Rowling provavelmente não sabe dizer. Assim como não é capaz de tecer maiores detalhes sobre o mecanismo do curioso processo inspirativo por trás do "nascimento" de Harry:
Foi após um fim de semana à caça de um apartamento, quando eu viajava de volta a Londres sozinha num trem lotado, que a idéia de Harry Potter simplesmente tomou minha mente. Eu havia escrito quase continuamente desde os seis anos de idade, mas nunca havia ficado tão estusiasmada com uma idéia antes. Para minha imensa frustração, eu não tinha uma caneta que funcionasse comigo, e era muito tímida para pedir emprestado a alguém.
Hoje eu acho que isso provavelmente foi bom, porque eu simplesmente sentei e pensei por quatro horas (de atraso do trem) seguidas, e todos os detalhes fervilharam no meu cérebro, e esse menino magrelo, de cabelo preto e óculos que ignorava ser um bruxo se tornou cada vez mais real para mim. Eu acho que se tivesse tido que frear as idéias de forma que pudesse capturá-las no papel, talvez tivesse perdido algumas delas (apesar de às vezes imaginar, vagamente, o quanto do que imaginei naquela viagem eu já havia esquecido quando finalmente pus as mãos numa caneta).
Profunda inspiração daquelas que todo artista sabe reconhecer de pronto? Ou uma sábia intuição soprada do Mais Além a uma alma preparada pra encarar o desafio? Quem sabe, um pouco de cada coisa... O certo é que a perda da mãe, naquele mesmo ano, deu a JK Rowling a experiência concreta da orfandade. E acendeu a luz que faltava para dar consistência à trama. E arrebatar milhões de pessoas por todo o mundo...
Mas não ache que se encerra por aqui nossa reflexão sobre a Espiritualidade em Harry Potter. Em novo post, vamos destrinchar mais algumas pistas que Rowling deixou para mostrar no último e imensamente aguardado volume Deathly Hallows...
É inclusive o mais interativo deles quem explica a Harry que "muito poucos bruxos escolhem esse caminho", a saber, o de se tornar um fantasma. Mas por quê? Porque, de modo geral, os bruxos preferem "seguir". "Eu tinha medo de partir. Escolhi ficar para trás. Às vezes penso se não deveria... Bem, isso não é cá nem lá... De fato, eu não estou cá nem lá... Eu não sei nada sobre os segredos do Além, Harry, porque escolhi minha fraca imitação de vida a ele", desabafa Near-Headless Nick.Eis o depoimento amargurado de um fantasma da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts sobre a continuidade da existência. Ele sabe que a vida não pára com o coração. E o próprio Nick é a prova "viva" disso. Mas ele também sabe que o Além é muito mais do que permanecer ao lado dos vivos, caminhando vagamente por estas bandas. Que o caminho correto é seguir, ir em frente, ainda que não esteja muito certo de para onde...
De fato, JK Rowling nunca se aprofundou nesse ponto. Se a existência do Além é clara, a forma dele é imprecisa no mundo de Harry Potter. Uma característica coerente, acreditamos, com a visão de mundo da autora. É que ela, anglicana de nascença, à moda do nosso católico não-praticante, é daquelas pessoas que apenas crêem em algo mais. A educação religiosa foi suficiente para garantir na alma da escritora uma fé na transcendência, na continuidade da vida.Mas, e em detalhes? Como se daria esse processo na concepção dela? Rowling provavelmente não sabe dizer. Assim como não é capaz de tecer maiores detalhes sobre o mecanismo do curioso processo inspirativo por trás do "nascimento" de Harry:
Foi após um fim de semana à caça de um apartamento, quando eu viajava de volta a Londres sozinha num trem lotado, que a idéia de Harry Potter simplesmente tomou minha mente. Eu havia escrito quase continuamente desde os seis anos de idade, mas nunca havia ficado tão estusiasmada com uma idéia antes. Para minha imensa frustração, eu não tinha uma caneta que funcionasse comigo, e era muito tímida para pedir emprestado a alguém.
Hoje eu acho que isso provavelmente foi bom, porque eu simplesmente sentei e pensei por quatro horas (de atraso do trem) seguidas, e todos os detalhes fervilharam no meu cérebro, e esse menino magrelo, de cabelo preto e óculos que ignorava ser um bruxo se tornou cada vez mais real para mim. Eu acho que se tivesse tido que frear as idéias de forma que pudesse capturá-las no papel, talvez tivesse perdido algumas delas (apesar de às vezes imaginar, vagamente, o quanto do que imaginei naquela viagem eu já havia esquecido quando finalmente pus as mãos numa caneta).Profunda inspiração daquelas que todo artista sabe reconhecer de pronto? Ou uma sábia intuição soprada do Mais Além a uma alma preparada pra encarar o desafio? Quem sabe, um pouco de cada coisa... O certo é que a perda da mãe, naquele mesmo ano, deu a JK Rowling a experiência concreta da orfandade. E acendeu a luz que faltava para dar consistência à trama. E arrebatar milhões de pessoas por todo o mundo...
Mas não ache que se encerra por aqui nossa reflexão sobre a Espiritualidade em Harry Potter. Em novo post, vamos destrinchar mais algumas pistas que Rowling deixou para mostrar no último e imensamente aguardado volume Deathly Hallows...
domingo, 18 de janeiro de 2009
A Questão Espiritual em Harry Potter
English Version
Magia, aventura e fantasia barata? Não. Harry Potter é bem mais do que isso. Por trás do que possa parecer, a série mais badalada dos últimos anos é uma história sobre a morte. Medo, dores, luta e superação da finitude são a linha-mestra do enredo infanto-juvenil que cativa milhares de adultos pelo mundo afora.
Palavras da autora, a inglesa J.K. Rowling: "É um forte tema central [da série] - lidar com a morte, sim, e encará-la de frente", diria ela em 2000 à
CBC Newsworld. "Meus livros são, em grande parte, sobre a morte. Eles abrem com a morte dos pais do Harry. Tem a obsessão de Voldemort em conquistar a morte e a busca dele pela imortalidade a qualquer preço (...) Eu entendo por que Voldemort quer conquistar a morte. Todos temos medo dela", complementaria a escritora em 2006, à Revista Tatler.
Mas Rowling talvez nem precisasse ter se explicado. Basta uma leitura atenta à obra para perceber que a magia é apenas o pano de fundo. Que a dificuldade de lidar com a morte é que norteia o desenrolar da história. E que ao longo do caminho, a trama acaba apresentando uma série de indícios curiosos para a construção de uma teoria espiritualista própria do universo Potteriano.
Se a morte está na raiz de tudo, a imortalidade da alma é uma certeza no mundo mágico. "Para a mente bem-estruturada, a morte nada mais é do que a próxima grande aventura", diria Albus Dumbledore, o maior bruxo dos últimos séculos, ainda no primeiro volume da obra. E as relações entre os que vão e os que ficam não se quebram com a morte. Pelo menos não de forma integral ou necessária.
Logo no pioneiro Harry Potter and the Philosopher's Stone, o leitor se depara com fotos animadas, pinturas que falam e fantasmas que transitam livremente pela Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Registros vivos de quem passou, que de alguma forma permanecem entre nós.
As fotos são como animações, semelhantes a alguns porta-retratos mais modernos. As pessoas retratadas se movem, sorriem, acenam, mas não vão além disso. As pinturas são mais complexas. Permitem que o morto, ou pelo menos um reflexo dele, se comunique livremente com os vivos. O retratado tem a liberdade de se locomover entre os quadros que ficam no mesmo edifício em que o seu. E, de quebra, ainda pode passear entre todos o quadros que o retratem, em qualquer parte do mundo. Apesar de ele se restringir, na maior parte dos casos, a reproduzir frases e idéias-chave de quando vivo, é possível ver muitos exemplos de uma ação mais livre e elaborada ao longo da trama.
E, por fim, os fantasmas propriamente ditos. Só em Hogwarts são cerca de 20, "impressões de almas que se foram deixadas sobre a Terra", nos dizeres do professor Severus Snape, no sexto livro, Harry Potter and the
Half-Blood Prince. Eles se deslocam livremente dentro do castelo, falam, pensam, sentem, aconselham e interagem com os vivos. Mas não representam o destino natural dos mortos: "Só os bruxos", dirá Nearly Headless Nick, um dos fantasmas mais participativos em toda a trama, em Harry Potter and the Order of the Phoenix. Acrescenta a seguir: "Bruxos podem deixar um impressão de si mesmos sobre a Terra, para vagar por onde pisaram quando vivos (...) Mas muito poucos bruxos escolhem esse caminho".
Mas por quê? - é a pergunta que Harry, e nós também, deixamos escapar diante da fala do fantasma. Uma interrogação central para a compreensão do espiritualismo potteriano e que vai abrir nosso próximo artigo sobre A Questão Espiritual em Harry Potter...
Magia, aventura e fantasia barata? Não. Harry Potter é bem mais do que isso. Por trás do que possa parecer, a série mais badalada dos últimos anos é uma história sobre a morte. Medo, dores, luta e superação da finitude são a linha-mestra do enredo infanto-juvenil que cativa milhares de adultos pelo mundo afora.
Palavras da autora, a inglesa J.K. Rowling: "É um forte tema central [da série] - lidar com a morte, sim, e encará-la de frente", diria ela em 2000 à
CBC Newsworld. "Meus livros são, em grande parte, sobre a morte. Eles abrem com a morte dos pais do Harry. Tem a obsessão de Voldemort em conquistar a morte e a busca dele pela imortalidade a qualquer preço (...) Eu entendo por que Voldemort quer conquistar a morte. Todos temos medo dela", complementaria a escritora em 2006, à Revista Tatler.Mas Rowling talvez nem precisasse ter se explicado. Basta uma leitura atenta à obra para perceber que a magia é apenas o pano de fundo. Que a dificuldade de lidar com a morte é que norteia o desenrolar da história. E que ao longo do caminho, a trama acaba apresentando uma série de indícios curiosos para a construção de uma teoria espiritualista própria do universo Potteriano.
Se a morte está na raiz de tudo, a imortalidade da alma é uma certeza no mundo mágico. "Para a mente bem-estruturada, a morte nada mais é do que a próxima grande aventura", diria Albus Dumbledore, o maior bruxo dos últimos séculos, ainda no primeiro volume da obra. E as relações entre os que vão e os que ficam não se quebram com a morte. Pelo menos não de forma integral ou necessária.
Logo no pioneiro Harry Potter and the Philosopher's Stone, o leitor se depara com fotos animadas, pinturas que falam e fantasmas que transitam livremente pela Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Registros vivos de quem passou, que de alguma forma permanecem entre nós.As fotos são como animações, semelhantes a alguns porta-retratos mais modernos. As pessoas retratadas se movem, sorriem, acenam, mas não vão além disso. As pinturas são mais complexas. Permitem que o morto, ou pelo menos um reflexo dele, se comunique livremente com os vivos. O retratado tem a liberdade de se locomover entre os quadros que ficam no mesmo edifício em que o seu. E, de quebra, ainda pode passear entre todos o quadros que o retratem, em qualquer parte do mundo. Apesar de ele se restringir, na maior parte dos casos, a reproduzir frases e idéias-chave de quando vivo, é possível ver muitos exemplos de uma ação mais livre e elaborada ao longo da trama.
E, por fim, os fantasmas propriamente ditos. Só em Hogwarts são cerca de 20, "impressões de almas que se foram deixadas sobre a Terra", nos dizeres do professor Severus Snape, no sexto livro, Harry Potter and the
Half-Blood Prince. Eles se deslocam livremente dentro do castelo, falam, pensam, sentem, aconselham e interagem com os vivos. Mas não representam o destino natural dos mortos: "Só os bruxos", dirá Nearly Headless Nick, um dos fantasmas mais participativos em toda a trama, em Harry Potter and the Order of the Phoenix. Acrescenta a seguir: "Bruxos podem deixar um impressão de si mesmos sobre a Terra, para vagar por onde pisaram quando vivos (...) Mas muito poucos bruxos escolhem esse caminho".Mas por quê? - é a pergunta que Harry, e nós também, deixamos escapar diante da fala do fantasma. Uma interrogação central para a compreensão do espiritualismo potteriano e que vai abrir nosso próximo artigo sobre A Questão Espiritual em Harry Potter...
quarta-feira, 2 de julho de 2008
The Spiritual Issue in Harry Potter
Wizardry, adventure and junky fantasy? No. Harry Potter is far more than that. Beyond the appearances, the most successful written series of the last years is a story about death. Fear, pain, fight and overcoming of death are the argument of a “children’s plot” that mesmerizes millions of adults throughout the world.
Who says it is the very author of the books,
J.K. Rowling: “It's a strong central theme - dealing with death, yeah, and facing up to death!", stated her on an interview to CBC Newsworld. "My books are largely about death. They open with the death of Harry's parents. There is Voldemort's obsession with conquering death and his quest for immortality at any price (...) I so understand why Voldemort wants to conquer death. We're all frightened of it".
But she didn’t need to explain herself. An attentive reading would be enough to realise that wizardry is nothing but a background for the plot. That the difficulty of dealing with death is the real argument of Potter’s storyline. And that the narrative presents several hints for drafting a spiritualist theory appropriate for that universe.
If death is on the root of the whole thing, the immortality of the soul is certain in the magic world. “To the well-organised mind, death is but the next great adventure”, would say Albus Dumbledore, the greatest wizard of the last centuries, in the first book. And the relationship between who goes and who stays isn’t broken by death. Neither fully, nor necessarily.
The pioneer Harry Potter and the Philosopher's Stone introduces the reader to photographs with moving subjects, speaking portraits and ghosts who hang around Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry. Alive registers of who is gone, which somehow remain among us.
Magical photographs are very similar to our modern digital frames, although they don’t need electricity to work. People on it can move, smile and wave, for instance, but they could hardly do anything else. Portraits are more complex, allowing the dead, or at least an imprint of it, to freely communicate with living people. The portrayed person is able to move amongst all the portraits placed at the same building as his. Besides, it can take a walk among all his own portraits wherever they are in the world. Although in most of time wizard portraits only “give advice or repeat catchphrases”, as stated by Rowling, there are many examples of more complex behaviors of them along the narrative.
At last, the ghosts. Only at Hogwarts, there are more than 20, "imprints of departed
souls left upon the Earth", according to professor Severus Snape, in the sixth book, Harry Potter and the Half-Blood Prince. They move just like anyone else inside the Castle (actually better, since they can cross the walls…) and are able to think, speak, feel and interact. However, their condition doesn’t represent the natural destiny of deceased people: “Only wizards”, says the ghost called Nearly Headless Nick in Harry Potter and the Order of the Phoenix. "Wizards can leave an imprint of themselves upon the earth, to walk palely where their living selves once trod, but very few wizards choose that path".
Why? – ask both we and Harry before Nick’s statement. An essential question for understanding the potterian spiritualism, which we chose to introduce our second article about The Spiritual Issue in Harry Potter…
Who says it is the very author of the books,
J.K. Rowling: “It's a strong central theme - dealing with death, yeah, and facing up to death!", stated her on an interview to CBC Newsworld. "My books are largely about death. They open with the death of Harry's parents. There is Voldemort's obsession with conquering death and his quest for immortality at any price (...) I so understand why Voldemort wants to conquer death. We're all frightened of it".But she didn’t need to explain herself. An attentive reading would be enough to realise that wizardry is nothing but a background for the plot. That the difficulty of dealing with death is the real argument of Potter’s storyline. And that the narrative presents several hints for drafting a spiritualist theory appropriate for that universe.
If death is on the root of the whole thing, the immortality of the soul is certain in the magic world. “To the well-organised mind, death is but the next great adventure”, would say Albus Dumbledore, the greatest wizard of the last centuries, in the first book. And the relationship between who goes and who stays isn’t broken by death. Neither fully, nor necessarily.
The pioneer Harry Potter and the Philosopher's Stone introduces the reader to photographs with moving subjects, speaking portraits and ghosts who hang around Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry. Alive registers of who is gone, which somehow remain among us.Magical photographs are very similar to our modern digital frames, although they don’t need electricity to work. People on it can move, smile and wave, for instance, but they could hardly do anything else. Portraits are more complex, allowing the dead, or at least an imprint of it, to freely communicate with living people. The portrayed person is able to move amongst all the portraits placed at the same building as his. Besides, it can take a walk among all his own portraits wherever they are in the world. Although in most of time wizard portraits only “give advice or repeat catchphrases”, as stated by Rowling, there are many examples of more complex behaviors of them along the narrative.
At last, the ghosts. Only at Hogwarts, there are more than 20, "imprints of departed
souls left upon the Earth", according to professor Severus Snape, in the sixth book, Harry Potter and the Half-Blood Prince. They move just like anyone else inside the Castle (actually better, since they can cross the walls…) and are able to think, speak, feel and interact. However, their condition doesn’t represent the natural destiny of deceased people: “Only wizards”, says the ghost called Nearly Headless Nick in Harry Potter and the Order of the Phoenix. "Wizards can leave an imprint of themselves upon the earth, to walk palely where their living selves once trod, but very few wizards choose that path".Why? – ask both we and Harry before Nick’s statement. An essential question for understanding the potterian spiritualism, which we chose to introduce our second article about The Spiritual Issue in Harry Potter…
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Conteúdo Extra
Trecho do capítulo inicial de O Silmarillion
O início está neste post
Agora, porém, Ilúvatar escutava, sentado, e por muito tempo aquilo lhe pareceu bom, pois na música não havia falha. Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. A Melkor, entre os Ainur, haviam sido concedidos os maiores dons de poder e conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos. Muitas vezes, Melkor penetrara sozinho nos espaços vazios em busca da Chama Imperecível, pois ardia nele o desejo de dar Existência a coisas por si mesmo; e a seus olhos Ilúvatar não dava atenção ao Vazio, ao passo que Melkor se impacientava com o vazio. E, no entanto ele não encontrou o Fogo, pois este está com Ilúvatar. Estando sozinho, porém, começara a conceber pensamentos próprios, diferentes daqueles de seus irmãos.
Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música, e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música a de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. Espalhou-se então cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos. Ilúvatar, entretanto, escutava sentado até lhe parecer que em volta de seu trono bramia uma tempestade violenta, como a de águas escuras que guerreiam entre si numa fúria incessante que não queria ser aplacada.
Ergueu-se então Ilúvatar, e os Ainur perceberam que ele sorria E ele levantou a mão esquerda, e um novo tema surgiu em meio à tormenta, semelhante ao tema anterior e ao mesmo tempo diferente; e ganhava força e apresentava uma nova beleza. Mas a dissonância de Melkor cresceu em tumulto e o enfrentou. Mais uma vez houve uma guerra sonora, mais violenta do que antes, até que muitos dos Ainur ficaram consternados e não cantaram mais, e Melkor pôde dominar.
Ergueu-se então novamente Ilúvatar, e os Ainur perceberam que sua expressão era severa. Ele levantou a mão direita, e vejam! Um terceiro tema cresceu em meio à confusão, diferente dos outros. Pois, de início parecia terno e doce, um singelo murmúrio de sons suaves em melodias delicadas; mas ele não podia ser subjugado e acumulava poder e profundidade. E afinal pareceu haver duas músicas evoluindo ao mesmo tempo diante do trono de Ilúvatar, e elas eram totalmente díspares. Uma era profunda, vasta e bela, mas lenta e mesclada a uma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem. A outra havia agora alcançado uma unidade própria; mas era alta, fútil e infindavelmente repetitiva; tinha pouca harmonia, antes um som uníssono e clamoroso como o de muitas trombetas soando apenas algumas notas. E procurava abafar a outra música pela violência de sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotadas pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene.
No meio dessa contenda, na qual as mansões de Ilúvatar sacudiram, e um tremor se espalhou, atingindo os silêncios até então impassíveis, Ilúvatar ergueu-se mais uma vez, e sua expressão era terrível de ver. Ele então levantou as duas mãos, e num acorde, mais profundo que o Abismo, mais alto que o Firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a Música cessou.
Então, falou Ilúvatar e disse:
Então, falou Ilúvatar e disse:
- Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou.
(...)
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