segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Questão Espiritual em Harry Potter - Parte 2

Falávamos há algumas semanas sobre a espiritualidade no maior clássico contemporâneo da literatura infanto-juvenil. Esboçamos as primeiras linhas de uma teoria espiritualista potteriana, a partir de dados fornecidos pela própria obra: a certeza na imortalidade da alma; as possibilidades concretas de contato entre quem "se foi" e quem permanece vivo; e a curiosa condição dos fantasmas naquele universo.

É inclusive o mais interativo deles quem explica a Harry que "muito poucos bruxos escolhem esse caminho", a saber, o de se tornar um fantasma. Mas por quê? Porque, de modo geral, os bruxos preferem "seguir". "Eu tinha medo de partir. Escolhi ficar para trás. Às vezes penso se não deveria... Bem, isso não é cá nem lá... De fato, eu não estou cá nem lá... Eu não sei nada sobre os segredos do Além, Harry, porque escolhi minha fraca imitação de vida a ele", desabafa Near-Headless Nick.

Eis o depoimento amargurado de um fantasma da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts sobre a continuidade da existência. Ele sabe que a vida não pára com o coração. E o próprio Nick é a prova "viva" disso. Mas ele também sabe que o Além é muito mais do que permanecer ao lado dos vivos, caminhando vagamente por estas bandas. Que o caminho correto é seguir, ir em frente, ainda que não esteja muito certo de para onde...

De fato, JK Rowling nunca se aprofundou nesse ponto. Se a existência do Além é clara, a forma dele é imprecisa no mundo de Harry Potter. Uma característica coerente, acreditamos, com a visão de mundo da autora. É que ela, anglicana de nascença, à moda do nosso católico não-praticante, é daquelas pessoas que apenas crêem em algo mais. A educação religiosa foi suficiente para garantir na alma da escritora uma fé na transcendência, na continuidade da vida.

Mas, e em detalhes? Como se daria esse processo na concepção dela? Rowling provavelmente não sabe dizer. Assim como não é capaz de tecer maiores detalhes sobre o mecanismo do curioso processo inspirativo por trás do "nascimento" de Harry:

Foi após um fim de semana à caça de um apartamento, quando eu viajava de volta a Londres sozinha num trem lotado, que a idéia de Harry Potter simplesmente tomou minha mente. Eu havia escrito quase continuamente desde os seis anos de idade, mas nunca havia ficado tão estusiasmada com uma idéia antes. Para minha imensa frustração, eu não tinha uma caneta que funcionasse comigo, e era muito tímida para pedir emprestado a alguém.

Hoje eu acho que isso provavelmente foi bom, porque eu simplesmente sentei e pensei por quatro horas (de atraso do trem) seguidas, e todos os detalhes fervilharam no meu cérebro, e esse menino magrelo, de cabelo preto e óculos que ignorava ser um bruxo se tornou cada vez mais real para mim. Eu acho que se tivesse tido que frear as idéias de forma que pudesse capturá-las no papel, talvez tivesse perdido algumas delas (apesar de às vezes imaginar, vagamente, o quanto do que imaginei naquela viagem eu já havia esquecido quando finalmente pus as mãos numa caneta).

Profunda inspiração daquelas que todo artista sabe reconhecer de pronto? Ou uma sábia intuição soprada do Mais Além a uma alma preparada pra encarar o desafio? Quem sabe, um pouco de cada coisa... O certo é que a perda da mãe, naquele mesmo ano, deu a JK Rowling a experiência concreta da orfandade. E acendeu a luz que faltava para dar consistência à trama. E arrebatar milhões de pessoas por todo o mundo...

Mas não ache que se encerra por aqui nossa reflexão sobre a Espiritualidade em Harry Potter. Em novo post, vamos destrinchar mais algumas pistas que Rowling deixou para mostrar no último e imensamente aguardado volume Deathly Hallows...

4 comentários:

Larissa disse...

É muito bom e empolgante ver que existem os princípios espíritas em obras tão divulgadas e estimadas por pessoas do mundo inteiro, como em HP. Sempre gostei muito desse universo mágico criado com o Harry Potter, por conseguir me tirar um pouco da realidade dura que vivemos no dia a dia e mostrar que ainda existe a fantasia nas nossas vidas. Mas com essas análises, vejo que os livros tratam de assuntos bem mais reais do que eu havia imaginado e percebido antes.

Jean Paul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jean Paul disse...

Impressionante! Já havia constatado algumas semelhanças do universo potteriano com a realidade da vida, mas não fiz essa análise tão profunda... me baseava somente na inspiração que JK recebeu do "alto", disso não podemos duvidar. O autor do blog está de parabéns. Agora lembro de uma frase que já ouvi (só não me lembro de quem, mas foi no meio espírita): que tudo o que pensamos/imaginamos existe (talvez não da forma exata que imaginamos, mas semelhante); e não duvido disso... já que existem bilhares de mundos.

Marinho disse...

No diálogo com o crítico, quando minutos antes começaram a falar sobre se os médiuns eram os antigos assim chamados feiticeiros, Kardec enfim arremata em "O que é o Espiritismo": "Ele [o Espiritismo] é para a magia o que a Astronomia é para a Astrologia, a Química para a Alquimia." Entendo que isso seja uma fala positivista do codificador, mostrando uma certa superioridade espírita. Mas, apreendemos também que essa frase mostra a conexão íntima dos fenômenos em questão. Não é de se admirar, pois, que Potter tenha tanto espiritismo.