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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Kardec e o autor d'O Mundo de Sofia

O escritor norueguês Jostein Gaarder é um velho conhecido do mercado internacional de best-sellers. Desde o início dos anos 90, quando lançou o clássico Sofies verden (ou O Mundo de Sofia), Gaarder tem se especializado em desenvolver narrativas profundamente humanas com forte influência da Filosofia. Histórias reflexivas, introspectivas, mas capazes de conquistar dezenas de milhões de leitores em todo o mundo.
Em 2008, veio a público o trabalho mais recente, Slottet i Pyreneene, que está sendo lançado agora em agosto no Brasil sob o título O Castelo dos Pirineus. O enredo trata de um ex-casal de namorados que se "reencontra" virtualmente 30 anos após o rompimento, dando início a uma troca de e-mails que revela uma incrível divergência entre as percepções de cada um sobre o antigo relacionamento e os motivos da separação.

Até aí, nada de novo. O que nos chamou a atenção foi o fato de os personagens terem sido escolhidos para representar o eterno embate entre razão e fé, ciência e espiritualidade. Isso porque Steinn, físico e meteorologista, é um racionalista de carteirinha, enquanto Solrun, professora e tradutora, uma espiritualista convicta. O detalhe é que Solrun, mais especificamente, é espírita, leitora assídua do Livro dos Espíritos.

Em uma série de entrevistas concedidas a jornais e TVs brasileiros, Gaarder revela que se debruçou detidamente sobre a obra fundamental da Doutrina Espírita para compor a personagem. E garante que ao longo do trabalho de elaboração d'O Castelo dos Pirineus, reviu seu próprio ceticismo pessoal sob a influência do diálogo com o trabalho de Allan Kardec, como se vê nesse vídeo gravado no último fim de semana durante a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A curiosa biblioteca espírita de Kardec


Algumas semanas atrás, tivemos oportunidade de retomar o rastro de uma obra há muito esquecida. Por nós e por quase todos os espíritas do mundo. Ou você já ouviu falar do Catálogo racional: obras para se fundar uma Biblioteca Espírita, último livro escrito e publicado por ninguém mais, ninguém menos, que Allan Kardec?

Certamente, não se trata de uma "obra básica" equiparável em importância a O Livro dos Espíritos ou ao Evangelho segundo o Espiritismo. Contudo, em algumas dezenas de páginas, é possível apreender lições valiosas. Nelas, Kardec nos traz exemplos concretos de como entendia a relação a ser estabelecida entre o espiritismo e a cultura geral.

E revela a cada página uma visão incrivelmente aberta, plural e rara de se encontrar hoje em dia entre nós. Dizemos "nós" porque também fomos surpreendidos com a indicação de textos teatrais, partituras musicais, obras materialistas, niilistas, anti-espíritas, espiritólicas e até dos controversos Quatro Evangelhos de J.B. Roustaing...

A primeira seção do Catálogo é curta e sem surpresas. Ela é dedicada às obras fundamentais da doutrina - aquelas escritas por Kardec. Toda a Codificação, mais O que é o espiritismo?, Revista Espírita, O caráter da revelação espírita, Viagem espírita em 1862 e O espiritismo na sua expressão mais simples estão indicadas ali.

A segunda, bem mais extensa, guarda as primeiras indicações inusitadas. Ela reúne obras escritas sob influência do espiritismo, umas mediúnicas, outras não, que Kardec julgava "complementares da doutrina", em suas próprias palavras. Umas das primeiras sugestões é a do livro Revelações de além-túmulo, compilado por Henry Dozon, a partir de evocações que fazia por intermédio da esposa. Na foto abaixo, pode-se ler a descrição que o codificador faz da obra.

É ou não é o que hoje chamaríamos de um texto espiritólico, essa categoria desprezada tão frequentemente hoje por alguns companheiros espíritas?! Mas essa é só pra esquentar... Logo à frente vem Estudos e sessões espíritas, organizado por um "doutor Houat", que traz tão somente instruções sobre homeopatia obtidas mediunicamente. Detalhe: nada de psicografia. O doutor passou um ano realizando sessões de tiptologia, aquele velho toc toc na mesa a indicar letras e números, para compor a obra... Um sujeito paciente, sem dúvida!

A seguir... O próprio, quase inominável para alguns: Roustaing e seus Evangelhos (Os quatro), seguidos dos mandamentos, explicados em espírito e em verdade pelos evangelistas, como se vê abaixo:

A despeito da ressalva e da indicação de leitura do artigo de A Gênese que refuta a teoria do corpo fluídico, Kardec não deixa de indicar a obra. Provavelmente por julgar que ela tem uma contribuição a oferecer, independente do ponto duvidoso que defende. Mais ou menos como o livro Dos Espíritos e de suas Manifestações Fluídicas, de Jules de Mirville, obra que antecedeu O Livro dos Espíritos na defesa da explicação espiritual para as mesas girantes... Só que atribuindo tudo ao Capeta e seus companheiros. A explicação que Kardec dá abaixo resume a postura que o movia, centrada no fundo, mais que na forma, e alheia a preciosismos.

Ainda nesta seção, o codificador dedica capítulos exclusivos à poesia e à música. Encontramos ali a indicação de três precursores do Parnaso de Além-Túmulo, como se vê na foto.

Só que a parte mais interessante fica na seção musical. Ao lado de duas partituras mediúnicas, atribuídas respectivamente aos Espírito de Bach e Mozart, temos duas partituras compostas por espíritas, intituladas Cantata Espírita, com acompanhamento para piano, Herczka e Toussaint, eRecordação Espírita, capricho noturno para piano por C. Constant. Peças que podem ser consideradas genuinamente como as duas primeiras composições musicais espíritas feitas na história! Infelizmente, não nos chegaram as partituras propriamente ditas...

A seguir, vem a terceira sessão, Obras Realizadas Fora do Espiritismo, por meio da qual Kardec mostra um pouco mais de sua abertura para o mundo. São cerca de cem obras históricas, filosóficas e científicas, além de romances e textos teatrais, totalmente independentes do espiritismo, mas que apresentam uma boa possibilidade de diálogo com a doutrina.

Destacamos A Bíblia na Índia, de Louis Jacolliot, que versa sobre as relações entre cristianismo e hinduísmo; Buda e sua religião e Maomé e o Alcorão, ambos de Barthélémy Saint-Hilare, focados respectivamente nos ensinamentos budistas e muçulmanos; O Protestantismo Liberal, do pastor Bost; e Viagens à China, do missionário vicentino Evariste Huc.

E em meio aos infindáveis debates sobre se tal romance é ou não espírita, se é "real" ou "fantasioso" e se merece ou não figurar em livrarias espíritas, vejamos o que disse Kardec antes de indicar obras de George Sand, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Alexandre Dumas e Balzac:

Acho que o recado de tolerância e foco nas contribuições positivas, para além das diferenças aumentadas à base de lupa e microscópio, não poderia ser mais claro...

Por fim, chegamos à última e mais inesperada de todas as seções, intitulada Obras contra o Espiritismo. Já imaginou uma biblioteca espírita moderna, oferecendo ao público Deus, um delírio, de Richard Dawkins ou O mundo assombrado por demônios, de Carl Sagan?!

Pois Kardec não só estimulava a presença de obras desse náipe em sua biblioteca espírita, como explicava em alto e bom tom o porquê:

Proibir um livro é dar mostras de que o tememos. O Espiritismo, longe de temer a divulgação dos escritos publicados contra ele e interditar a sua leitura aos adeptos, chama a atenção destes e do público para tais obras, a fim de que possam julgar por comparação.

É, ainda há um longo caminho pela frente até que consigamos nos equiparar a essa mentalidade aberta, tolerante e cooperativa... De 140 anos atrás! E àquela de quase dois mil anos, então...? Deixa pra lá...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

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Grande Sertão Espírita

Graças a indicação preciosa do companheiro Túlio Villaça, ator e músico espírita do Rio de Janeiro, chegamos a mais um ponto de convergência notável entre espiritismo e arte. Dessa vez, nos debruçamos sobre a vida e a obra de Guimarães Rosa. Para descobrir uma série de declarações e passagens curiosas, que revelam a influência espírita marcante na história desse escritor mineiro.

Vejamos o resultado de pesquisa feita pela equipe do Centro Espírita Léon Denis, compilada na Apostila do 10º Seminário Espírita sobre Literatura e Espiritismo:

Em sua coluna do jornal “O Estado de Minas” de 26 de novembro de 1967, [Guimarães Rosa] confessou que “suas histórias lhe chegavam por vias supranormais.”

Citou como alguns contos e novelas eram escritos. A Buriti, de
Noites do Sertão, escrita em 1948, veio quase completa num sonho, duas noites seguidas.

Em carta ao escritor João Condé, publicada como um dos prefácios de Sagarana, João Guimarães Rosa afirma a respeito da criação do conto Carro de bois: “Aqui, houve fenômeno interessante, o único caso, neste livro, de mediunismo puro. Eu planejara escrever um conto de carro-de-bois com o carro, os bois, o guia e o carreiro. Penosamente, urdi o enredo, e, um sábado, fui dormir contente, disposto a pôr em caderno, no domingo, a história (nº. 1). Mas, no domingo, caiu-me do ou no crânio, prontinha, espécie de Minerva, outra história (nº. 2) – também com carro, bois, carreiro e guia – totalmente diferente da da véspera. Não hesitei: escrevi-a, logo, e me esqueci da outra, da anterior.

Em 1945, sofreu grandes retoques, mas nada recebeu da versão pré-histórica, que fora definitivamente sacrificada.” O autor, na mesma coluna anteriormente citada, publica informações sobre um romance inacabado, intitulado A Fazendeira de Velas, história acontecida no final do século dezenove num sobrado em que cada canto foi imaginado, minuciosamente, numa antiga cidade mineira. A personagem era solitária, sofrida e vivida pelo narrador. Transcreveremos aqui suas próprias palavras: “Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que a ele se referia, trouxe-me em gaveta.

Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano - adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto a do narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara e decorara, visualizado freqüentando-a por ofício. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isso é verdade. Dobremos de silêncio”

E é claro que todas essas experiências não poderiam deixar de ter um reflexo mais concreto na produção literária de Guimarães Rosa. Algo que pode ser percebido com clareza no clássico Grande Sertão: Veredas. Em especial, no que se refere ao personagem Compadre Quelemém, médium, espírita e conselheiro do protagonista da trama, o cangaceiro Riobaldo. No link abaixo, o lado espírita do Grande Sertão!

http://espiritodearte.blogspot.com/2009/01/contedo-extra.html

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

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A Moça Espírita de Clarice Lispector

"A moça, com os sapatos apertados, estremeceu com medo de si própria. Tinha medo de se purificar tanto que não pre­cisasse de mais nada. Como imaginar um ser que não precisasse de nada? era monstruoso. 'Não quero progredir', disse tei­mosa (...) Oh Deus, por que me escolheste para ser espírita e para compreender e saber?"

Eis o mote de uma curiosa reflexão espírita feita pela personagem Ermelinda, no livro A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector. O romance, que recebeu em 1962 o Prêmio Carmem Dolores Barbosa de melhor trabalho literário do ano, trata do drama pessoal de Martim. Ele vive uma relação conturbada com três mulheres: Vitória, dona da fazenda onde trabalha em troca de hospedagem; a mulata empregada da fazenda, cujo nome não é revelado na trama; e Ermelinda, prima de Vitória, viúva animada com a chegada de um homem ao ambiente antes tomado pela feminilidade...

Quando consegue marcar um encontro com Martim, Ermelinda chega mais cedo ao local combinado e aguarda sozinha por cerca de uma hora. É nesse meio tempo que reflete sobre si, seus medos e incertezas, a incapacidade de ser como gostaria e a falta de tempo para conquistar todos os sonhos... É aí que vem o medo da finitude e de uma certa insustentável leveza do Espírito. Com vocês, a reflexão espírita de Clarice Lispector:

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/12/contedo-extra.html

domingo, 12 de outubro de 2008

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A inspiração espírita de Cruz e Sousa

O Espírito de Arte tem mostrado a cada semana a diversidade de impressões que o espiritismo causou nos grandes autores da língua portuguesa, ainda vivos. Seja para ironizar, a exemplo de Machado de Assis, alfinetar, como fez Ariano Suassuna, ou exaltar, opção de Monteiro Lobato, não faltaram escritores de peso que achassem no espiritismo os elementos necessários para produzir literatura de qualidade. Às vezes até superior àquela atribuída a seus respectivos Espíritos de Além-Túmulo...

Dessa vez, vamos falar de um dos maiores poetas simbolistas da literatura universal: Cruz e Sousa. A produção mediúnica atribuída a ele é farta. Inclui pelo menos trinta sonetos psicografados pelo Chico Xavier, mais uma série de textos esparsos, produzidos via médiuns variados pelo Brasil afora. O que pouca gente sabe é da proximidade do Cisne Negro com o espiritismo, que já no final do século XIX ganhava espaço na Ilha do Desterro (hoje Floripa!), terra natal do escritor! Vejamos o que diz o filósofo Evaldo Pauli, da Universidade Federal de Santa Catarina, na Enciclopédia Simpózio, sobre o círculo de amizade de Cruz e Sousa:

Manoel dos Santos Lostada (1860-1923). (...) chegará a Oficial de Gabinete do Presidente Dr. Gama Rosa. Promotor público em Itajaí, logo a seguir. Mais tarde deputado estadual. Poeta. Adere ao espiritismo. Relacionado sempre com Cruz e Sousa, ocupar-se-á dos interesses deste em Santa Catarina quando da doença a morte do mesmo em 1898. Juvêncio de Araújo Figueiredo (1864-1927). Também espírita (...) Quando no Rio de Janeiro, hospedou a Cruz e Sousa em 1890, quando este então para ali também se trasladava. (...) No prefácio de Ascetério lemos um particular interessantíssimo: "Araújo Figueiredo foi o companheiro amigo e o irmão predileto do genial Cruz e Sousa, esse rebelde augusto que as ironias da vida despedaçaram sem poder dar-lhe morte" (Monsenhor Manfredo Leite). O testemunho de Manfredo Leite, nascido em 1876, em Desterro, membro da Academia Paulista de Letras, tem a validade de sua antiguidade e pela convivência tida com Araújo Figueiredo, o bom espírita, venerado como santo pelo povo...

Alguém poderia perguntar: certo, mas e daí? Ser amigo de espíritas não quer dizer lá muita coisa... De fato, não. Mas a influência do espiritismo na vida do poeta não pára por aí. É preciso lembrar que o simbolismo é uma escola literária fortemente influenciada pelo espiritualismo francês. As idéias de Espírito, transcendência e imortalidade estão presentes de forma mais ou menos clara em boa parte dos textos simbolistas. E, no caso de Cruz, essas noções parecem ter ganhado uma inspiração bem específica, ainda segundo Pauli:

Por convenção social de origem João da Cruz e Sousa era católico (...) À medida que passou a tomar posições conscientizadas, suas idéias foram sendo transformadas, para uma visão de síntese discorde da Igreja católica, da qual discretamente se afastou, assumindo uma posição similar a do espiritismo, já então em formação na capital de Santa Catarina. Aliás a doutrina do professor Allan Kardec (1804-1869) se enquadra no espiritualismo eclético francês, do qual foi o ramal espírita, e passou a ser muito lido também no Brasil, graças à então influência da literatura francesa.

Certo, certo, ele estava cercado por espíritas, pensava, em certa medida, como eles, e se afiliava a uma escola literária também influenciada por idéias do espiritismo. Mas e o que tem isso com a produção que o imortalizou como poeta? Bom, separamos logo abaixo três textos dele, um mais conhecido, os outros quase ignorados, que podem dar uma boa idéia de como a visão de mundo espírita influenciou a sensibilidade e a Arte de Cruz e Sousa.

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/10/poemas-de-cruz-e-sousa-publicados-na.html


sábado, 6 de setembro de 2008

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Machado de Assis visita a FEB

Versión en Español

Quem diria que o maior escritor brasileiro de
todos os tempos já andou se engraçando pro lado da Federação Espírita Brasileira...? O país era ainda Império, o Rio de Janeiro, a capital nacional, e a FEB mal abrira as portas. Em crônica publicada dia 05 de outubro de 1885 na Gazeta de Notícias, a mesma que viria a receber artigos espíritas de Bezerra alguns anos mais tarde, Machado atrai os leitores com a manchete: “Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo”.

Mas, logo a seguir, vem a advertência aos que aguardaram um relato corriqueiro sobre a visita a uma instituição espírita: "Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa."

Se já ninguém esperava por uma visita de Machado à FEB, que dizer de uma visita espiritual? Pois é isso mesmo o que ele relata dali por diante! Óbvio, vale destacar, que não se trata apenas de um relato. Como toda boa crônica machadiana, o texto é construído com base na figura de linguagem mais bem explorada de sua obra: a ironia. Acompanhe no link abaixo o texto completo
, indicação preciosa do ator, diretor, pesquisador literário e trabalhador espírita Gláucio Cardoso. Quem não ler à espera de uma profissão de fé espírita vai se divertir com as tiradas do autor, que elabora um final surpeendente para a trama! Confira:

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/08/l-l.html

sábado, 12 de julho de 2008

Conteúdo Extra

Trechos de cunho espírita em Grande Sertão: Veredas (18ª edição, Editora Nova Fronteira, 1984)

Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo há de ter conhecido diversos, homens e mulheres. Pois não sim? Por mim. Tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d´Outro o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será? (p. 9)

Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que o inimigo de morte pode vir como filho do inimigo. Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sido bons, de bem. Eles têm um filho duns dez anos, chamado Valtêi – nome moderno, é o que o povo daqui agora aprecêia, o senhor sabe. Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino bebeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura. A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom. Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega para a quaresma que vem... Uê-Uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? Aquele menino tinha sido homem. Devia, em balanço, terríveis perversidades. Alma dele estava no breu. Mostrava. E, agora, pagava. Ah, mas, acontece, quando está chorando e penado, ele sofre igual fosse um menino bonzinho... Ave, vi de tudo, neste mundo! Já vi até cavalo com soluço... – o que é a coisa mais custosa que há. (p. 12)

Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muita reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons espíritos me protegem. Ipê! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. (p. 14)

Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca... Ah, formei aquela pergunta, para compadre meu Quelemém. Que me respondeu: que, por perto do Céu, a gente se alimpou tanto, que todos os feios passados se exalaram de não ser – feito sem-modez de tempo de criança, más-artes. Como a gente não carece de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de uma noite. Assim que: tosou-se, floreou-se! Ahã. Por isso dito, é que a ida para o Céu é demorada. Eu confiro com compadre meu Quelemém, o senhor sabe: razão da crença mesma que tem – que, por todo mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. Sujeito assim madruga três vezes, em antes de querer facilitar em qualquer minudência repreensível... Compadre meu Quelemém nunca fala vazio, não subtrata. Só que isto a ele não vou expor. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei! O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (p. 21)

Às vezes penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho...” – ciente me respondeu. (p. 54)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Conteúdo Extra

Trecho do livro A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector (1961)

Oh, tivesse tido mais tempo, e nada precisava ser assim precipitado! pensou desolada abanando a cabeça. Poderia até ter mandado buscar alguma fazenda em Vila para cortar um vestido novo. Mas quanto tempo esse homem ficaria no sítio? E a morte? não, ela não tinha tempo, o tempo era curto, os pás­saros voando longe pareciam esperar sem pressa que ela se reunisse a eles. Eles, eles que não tinham pressa, eles que ti­nham a certeza. E que voavam esperando. Esperando que ela se reunisse àquela serena e perturbadora liberdade...

A moça, com os sapatos apertados, estremeceu com medo de si própria. Tinha medo de se purificar tanto que não pre­cisasse de mais nada. Como imaginar um ser que não precisasse de nada? era monstruoso. “Não quero progredir”, disse tei­mosa, lembrando-se da frase de um espírita que queria muito o progresso. Mas que sobraria dela, com o despojamento do pro­gresso? sobraria todo um corpo, sobrariam os desejos, e tanta poeira. Que faria sua alma liberta, sem um corpo onde existir? Doeria nas janelas até que as pessoas vivas dissessem: que dia de vento. E no verão ela seria o mal-estar das noites presas dentro dos jardins.

Foi então que ali em pé, no meio das milhares de batidas despercebidas de um coração que estava tão bem ligado à própria função, soou aquela pancada mais profunda que ela conhe­cia como se conhecesse alguém: uma pancada funda e oca como se o coração pudesse rolar para um abismo. E como sempre ela se perguntou: mas seria isso doença ou vida? No meio de mil palpitações de borboleta, aquela pancada trágica... Vou ao médico, resolveu com uma avidez de gulosa, vou ao médico. O frio dentro do sol arrepiou-a.

Oh, mas mesmo assim, até agora a vida não era grave — pois ela possuía um corpo onde se queixar, ia a um coração, tinha cólicas mensais, tinha um corpo onde ela acontecia. Mas depois? depois? A moça espírita desconfiava não ser tão ape­nas um pensamento que alguém adivinharia no ar e que cha­maria, segundo ela, de inspiração. Não lhe bastaria, na liberta­ção, espreitar impaciente a madrugada para aproveitar-se sorra­teira e astuciosa dessa concretização de luz — e ser. Nem lhe bastaria olhar o céu seco durante dias na esperança de incorpo­rar-se à chuva para poder chorar. Habituara-se demais à vida, estava acostumada com certos confortos mínimos, precisava onde doer, onde sangrar se cortasse um dedo. Oh Deus, por que me escolheste para ser espírita e para compreender e saber?, pen­sou ao peso de sua vocação, sou apenas humana, não me deis tarefa acima de minhas forças. E a morte estava claramente acima de sua capacidade.

Oh, e se fosse para ser mal-assombrada — se é que espe­ravam que o fosse, e ela não sabia ao certo o que esperavam dela — então precisaria pelo menos de uma casa inteira, e de mais de um andar, calculou com minúcia. E que as portas se abrissem pela sua ausência de mão, que os passos soassem pela sua falta de pés — mas... mas tudo isso apenas acionado pela memória? Como seria difícil a sua memória. “Como é mesmo que eu tocava piano enquanto estava viva? mas como era mes­mo?”, se perguntaria. Tanto dinheiro gasto em professoras para terminar tocando com a angústia de um dedo só. Tendo como auditório uma possível mulher viva apavorada com as próprias imaginações?

Não, não, ela não pretendia assustar uma mulher com suas memórias difíceis. No fundo — refletiu ela com a mania de se preocupar de antemão com os detalhes — no fundo talvez se contentasse em arranjar o corpo de alguém onde ela pudesse dormir. E uma carne onde se explicar. Pois o que doeria, mais que tudo, seria a sua própria isenção. Por exemplo, lá estaria, como agora, a água do rio. Só que ela simplesmente não precisaria mais beber! assim como perturbava uma perna amputada que não precisa mais andar; ficaria ela com a função da perna mas sem a perna? Então — então lhe restaria contemplar a água. Mas seria ela os olhos ou a própria paisagem? E — e como ouvir? não seria ela própria o som? E, pouco a pouco, cada vez mais liberta, será que ela ao menos pensaria? Pois todo pensamento era filho de coisas, e ela não teria mais coisas. Estaria enfim livre...