domingo, 12 de outubro de 2008

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A inspiração espírita de Cruz e Sousa

O Espírito de Arte tem mostrado a cada semana a diversidade de impressões que o espiritismo causou nos grandes autores da língua portuguesa, ainda vivos. Seja para ironizar, a exemplo de Machado de Assis, alfinetar, como fez Ariano Suassuna, ou exaltar, opção de Monteiro Lobato, não faltaram escritores de peso que achassem no espiritismo os elementos necessários para produzir literatura de qualidade. Às vezes até superior àquela atribuída a seus respectivos Espíritos de Além-Túmulo...

Dessa vez, vamos falar de um dos maiores poetas simbolistas da literatura universal: Cruz e Sousa. A produção mediúnica atribuída a ele é farta. Inclui pelo menos trinta sonetos psicografados pelo Chico Xavier, mais uma série de textos esparsos, produzidos via médiuns variados pelo Brasil afora. O que pouca gente sabe é da proximidade do Cisne Negro com o espiritismo, que já no final do século XIX ganhava espaço na Ilha do Desterro (hoje Floripa!), terra natal do escritor! Vejamos o que diz o filósofo Evaldo Pauli, da Universidade Federal de Santa Catarina, na Enciclopédia Simpózio, sobre o círculo de amizade de Cruz e Sousa:

Manoel dos Santos Lostada (1860-1923). (...) chegará a Oficial de Gabinete do Presidente Dr. Gama Rosa. Promotor público em Itajaí, logo a seguir. Mais tarde deputado estadual. Poeta. Adere ao espiritismo. Relacionado sempre com Cruz e Sousa, ocupar-se-á dos interesses deste em Santa Catarina quando da doença a morte do mesmo em 1898. Juvêncio de Araújo Figueiredo (1864-1927). Também espírita (...) Quando no Rio de Janeiro, hospedou a Cruz e Sousa em 1890, quando este então para ali também se trasladava. (...) No prefácio de Ascetério lemos um particular interessantíssimo: "Araújo Figueiredo foi o companheiro amigo e o irmão predileto do genial Cruz e Sousa, esse rebelde augusto que as ironias da vida despedaçaram sem poder dar-lhe morte" (Monsenhor Manfredo Leite). O testemunho de Manfredo Leite, nascido em 1876, em Desterro, membro da Academia Paulista de Letras, tem a validade de sua antiguidade e pela convivência tida com Araújo Figueiredo, o bom espírita, venerado como santo pelo povo...

Alguém poderia perguntar: certo, mas e daí? Ser amigo de espíritas não quer dizer lá muita coisa... De fato, não. Mas a influência do espiritismo na vida do poeta não pára por aí. É preciso lembrar que o simbolismo é uma escola literária fortemente influenciada pelo espiritualismo francês. As idéias de Espírito, transcendência e imortalidade estão presentes de forma mais ou menos clara em boa parte dos textos simbolistas. E, no caso de Cruz, essas noções parecem ter ganhado uma inspiração bem específica, ainda segundo Pauli:

Por convenção social de origem João da Cruz e Sousa era católico (...) À medida que passou a tomar posições conscientizadas, suas idéias foram sendo transformadas, para uma visão de síntese discorde da Igreja católica, da qual discretamente se afastou, assumindo uma posição similar a do espiritismo, já então em formação na capital de Santa Catarina. Aliás a doutrina do professor Allan Kardec (1804-1869) se enquadra no espiritualismo eclético francês, do qual foi o ramal espírita, e passou a ser muito lido também no Brasil, graças à então influência da literatura francesa.

Certo, certo, ele estava cercado por espíritas, pensava, em certa medida, como eles, e se afiliava a uma escola literária também influenciada por idéias do espiritismo. Mas e o que tem isso com a produção que o imortalizou como poeta? Bom, separamos logo abaixo três textos dele, um mais conhecido, os outros quase ignorados, que podem dar uma boa idéia de como a visão de mundo espírita influenciou a sensibilidade e a Arte de Cruz e Sousa.

http://espiritodearte.blogspot.com/2008/10/poemas-de-cruz-e-sousa-publicados-na.html


Um comentário:

Marinho disse...

Já que estamos falando de Grandes Escritores que falaram sobre o Espiritismo, olha o que Mário de Andrade colocou, gratuitamente, em seu clássico "Amar, verbo intransitivo":

“Primeiro: Que mentira, meu Deus! Dizerem Fräulein, personagem inventado por mim e por mim construído! Não construí coisa nenhuma. Um dia Elza [pseudônimo brasileiro de Fräulein] me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem invocasse, pois sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes. Aquelas não valem um tangará. Quanto a médiuns dicazes adjetivo bonito! – é sabido que escrevem sonetos de Bilac mais piores que um dístico de versejadores de terceira plana. Ora se os vates de segundo grau já são cacetes, se imagine o que não engendra a facúndia sonâmbula dos médiuns e dos espiritistas em geral! Dicazes.”

Insulto gratuito. Tirando isso, o livro é ótimo!