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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

E quando vem a culpa?

E quando surge a culpa, durante o processo de reconhecimento das grossas camadas de ilusão que se sedimentaram em nossa intimidade ao longo dos milênios? O que fazer com a incômoda sensação de que somos indignos, imprestáveis, desprezíveis até? Sim, porque é muito natural sentir-nos culpados, quando começamos a permitir que a Luz da Verdade evidencie as sombras que há tanto tempo cultivamos em nossa alma.

Depois de um longo tempo de ignorância espiritual, caminhando à base do automatismo, da fuga da dor, da busca pelo prazer, da necessidade de ser reconhecido e admirado pelos outros, não é fácil começar a caminhar de olhos abertos. A cegueira temporária de Saulo após o encontro com o Cristo ilustra fielmente a dificuldade de adaptação do nosso olhar às Claridades Celestes, tão fortemente habituados que estamos à escuridão e à penumbra do nosso mundo.

Ora, a culpa, ao lado do medo, são estados de espírito que nos paralisam. Eles nos impedem de caminhar e,  em especial no caso da culpa, de aproveitar tudo de Belo que a Verdade põe ao alcance da nossa vista. Porque o propósito de ganharmos gradualmente consciência de nossa condição espiritual, com tudo de bom e de ruim que ela possui hoje, é acelerar nosso crescimento, jamais retardá-lo.

Poderíamos falar de processos íntimos, modificação de ideias, renovação do pensamento... Mas o que nos parece estar na base disso tudo, sendo o passo primeiro e mais importante para evitar a culpa em meio ao reconhecimento das próprias dificuldades íntimas, é a companhia do outro. Não de qualquer um, mas daqueles Espíritos que, como nós, decidiram trilhar o Caminho.

Enfrentar a dura jornada do autoconhecimento ao lado de irmãos igualmente comprometidos com esse propósito torna o processo mais rico e a caminhada menos árdua. Evita tanto a ilusão da superioridade quanto a da inferioridade. E nos permite crescer apoiados uns nos outros, como nosso querido Mestre recomendou aos primeiros cristãos. Reconhecendo em nós e no outro a dor, reconhecendo em nós e no outro a capacidade de superação...

O ambiente propício para a vivência deste processo é o que temos procurado desenvolver em nossa casa espírita sob a orientação do professor Eurípedes!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um filme que fala ao Espírito...

E finalmente saiu Nosso Lar, o Filme, longa-metragem que criou tanta expectativa quanto (ou até mais do que) a película sobre Chico Xavier! Isso porque, além de ser baseado em uma das obras basilares do espiritismo no Brasil, a obra de Wagner de Assis tinha pela frente o desafio de traduzir em som e imagem um mundo espiritual rico em detalhes e difícil de se visualizar ainda hoje, mesmo para muitos espíritas.


Para tanto, o projeto contou com o orçamento mais caro da história do cinema nacional - R$20 milhões - e efeitos especiais desenvolvidos no Canadá, por uma equipe experiente, com filmes holywoodianos no currículo.

Mas, na minha modesta opinião, o maior desafio de Nosso Lar, o Filme, era transformar o enredo extramemente didático e expositivo de Nosso Lar, o livro, em uma história envolvente, capaz de prender a atenção de um espectador mais interessado em assisitr a um bom filme do que em aprender espiritismo.


Nesse sentido, fiquei satisfeito com o trabalho que assisti ontem no cinema. Nada de arrebatador, extasiante ou especialmente emocionante. Mas uma história verossímil, com personagens humanos, cheios de conflitos e dispostos a superarem as próprias limitações.

Se a proposta da obra literária é "conheça o mundo espiritual pelos olhos de um recém-desencarnado", a versão audiovisual põe em primeiro plano o drama da queda e da redenção de um Espírito que, como a maior parte de nós, viveu no mundo segundo as regras do mundo. Um Filho de Deus que ainda tem uma longa estrada pela frente até ser capaz de deixar que o próprio ego seja ofuscado pela Luz Imperecível da Divindade. E que enfrentou, no retorno à Vida Real, as dificuldades próprias de quem transita nessa condição.


À Direção de Arte e de Fotografia coube o papel de emoldurar com magia e beleza essa história tão espiritual quanto humana. E não posso negar minha satisfação com o resultado obtido. Um filme de belas imagens, de cenários caprichados, capazes de transportar nosso pensamento, ao longo de quase horas, para esferas mais amplas, mais altas do que aquelas a que nos acostumamos, e a que a grande maioria dos filmes produzidos hoje parecem fazer questão de nos manter presos...

Merecem ainda referência: a boa adaptação das falas originais para a boca dos personagens, capaz de manter os sentidos originais sem incorrer no típico erro da transcrição literal de textos que caem bem em livros, mas ficam morosos e cansativos na tela; o desempenho do ator Fernando Alves Pinto, que deu vida a um Lísias mais profundo do que quase todos os outros personagens do filme; e a opção do diretor/roteirista por inserir novos conflitos e aprofundar outros já existentes na trama original, de forma a dar mais vigor e consistência dramática ao longa.


Como disse antes, é possível que Nosso Lar, o Filme não entre para o hall da fama das obras-primas do cinema nacional. Mas, mesmo que não faça jus a estatueta dourada nenhuma, ele cumpre com maestria a função de falar ao Espírito com clareza talvez inédita no cinema. Sem metáforas, duplos sentidos ou mensagens subliminares. Atinge a alma em trânsito na Terra pela via racional, através do texto, e pela via sensorial, através da imagem e do som. Ajuda, por fim, o Espírito reencarnado a se aproximar como nunca da realidade de onde veio e que o aguarda irremediavelmente para colher a safra da colheita que realizou por aqui...

João Romário

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Idéias

Nárnia, Avatar e Deus em nós

Recentemente, tive uma dupla satisfação: a primeira foi terminar de ler o volume único de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, verdadeira obra básica da literatura fantástica universal. A segunda foi assistir no cinema a Avatar 3D, que deverá entrar na seleta lista das produções que servem para dividir a história do cinema em antes e depois delas.

Em comum, ambas mostram mundos paradisíacos localizados fora do nosso, mas igualmente ameaçados pelo desejo de posse dos seres humano. É curioso notar que as histórias foram escritas num intervalo de quase meio século e se desenrolam com uma diferença temporal superior a 200 anos. A de Nárnia se passa na década de 1940. A de Avatar, em 2151. E ambas retratam a mesma incontinência possessiva do homem, capaz de passar por cima de qualquer critério moral para satisfazer a própria gana.

Ao mesmo tempo, as duas narrativas deixam claro que há homens e mulheres dispostos a nadar contra a maré. Capazes de superar as próprias limitações, os condicionamentos culturais, sociais, morais, e sacrificar a própria vida, se for preciso, por aquilo que vale a pena lutar neste ou em qualquer dos outros mundos do Universo.

Tanto em Nárnia quanto em Avatar esses resistentes são pessoas que trazem, de berço ou de algum acontecimento da vida, uma forte ligação com a espiritualidade. É gente que leva a vida à frente, com todos os desafios do cotidiano, sabendo que tudo acontece sob a sábia regência de uma Força Superior. Pessoas que, a despeito de todas as dificuldades, se dispõem a lutar até o limite das forças, se o que está em jogo é a defesa da Vida, da Liberdade, do Respeito e da Dignidade. Se o que está em jogo é a defesa daquilo que É, diante da ameaça de forças que, apesar de transitórias, se apresentam ameaçadoras.

A metáfora com a nossa vida não poderia ser mais perfeita: todos nós que caminhamos sobre a Terra, sozinhos ou em conjunto, não passamos de "forças transitórias". Somos capazes dos atos mais magníficos e também dos mais abjetos. Podemos criar, colaborar, melhorar tanto quanto destruir, degradar e aniquilar o que chega ao alcance das mãos. Mas só até o limite do que a Força Eterna permite.

Àquelas que compreenderam o porquê de estarmos aqui, cabe lutar até a última réstia de energia pelo Valores Imortais. Afinal, a superação da materialidade, da finitude e do apego não vem com lutas esporádicas e pequenas benesses espalhadas a bel-prazer. O objetivo final da existência só se alcança por "aquele que perseverar até o fim". Isso porque ser capaz de chegar até o fim lutando, além da preguiça, da desesperança, da dor e do cansaço, é algo que só alcança quem já age não mais por conta própria, mas movido pelo Sopro Divino, em profunda sintonia com o Criador.

E aqueles que se permitem eclipsar a esse ponto, suplantando interesses pessoais e desejos egocêntricos em prol da ação plena do Eterno, nada têm a temer. Porque quando já não restarem para estes as próprias forças, A Força propriamente dita sempre vem terminar o serviço. Como fez Eywa entre os Na'vi... Como Aslam entre os narnianos ... e como o próprio Deus, ainda e sempre, entre nós!

Para uma reflexão mais detalhada sobre Avatar e Espiritualidade sugiro fortemente este belo artigo no Orkut.

Romário Fernandes

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Idéias

Besouro: um herói que voa e vê Espíritos!

Eita, Brasil rico de cultura, arte e religiosidade! Um país que se forjou nos contatos - nada amistosos - entre povos totalmente diferentes. Que resultou numa sociedade altamente plural e heterogênea. E que ainda está aprendendo a lidar com toda essa diversidade.

É curioso notar como um país assim carece de heróis. Gente que represente a luta do povo, que sirva de exemplo para as conquistas e os anseios da gente. Não que eles não tenham existido. É só que poucos deles habitam a nossa memória.

No cinema, o diretor João Daniel Tikhomiroff tenta preencher essa lacuna com o filme Besouro: nasce um herói, que acaba de entrar em cartaz nos cinemas. O personagem-título é um capoeirista lendário que assombrou coronéis e fazendeiros do Recôncavo Baiano. Dizia-se que era capaz de levar a nocaute um pelotão de policiais, para sumir logo em seguida, sem deixar vestígio.

Mas o que nos inspira a escrever este texto é a forma como Tikhomiroff aborda as interações entre o mundo de cá e o de lá. O universo de Besouro é o das tradições africanas, particularmente do Candomblé. Homens e Orixás vivem em contato direto e freqüente. Rezas, sacrifícios e oferendas medeiam essa relação, vantajosa para ambas as partes.

Cabe ressaltar que, na tradição candomblecista, os Orixás não são Espíritos de pessoas falecidas. São ao mesmo tempo guardiões e representações dos elementos da natureza. Forças cósmicas que inteferem diretamente no destino dos homens. Tradicionalmente, são retratados com forma humana, mesclada com características dos elementos que personificam.

Na película, eles ganham uma representação exemplar em termos de naturalidade, expressão e relação com os homens e com a natureza de que fazem parte. Exemplar inclusive para os cineastas espíritas, atuais e potenciais, que haja por aí!

Um dos primeiros a aparecer é o temido Exu, orixá ambíguo, associado tanto a nobres quanto
terríveis realizações. No melhor estilo médium desorientado, um feirante percebe a presença da figura, confunde a entidade com uma pessoa comum que estivesse esnobando os produtos do quiosque dele, e parte pra cima do orixá! Detalhe: aos olhos da maior parte dos freqüentadores da feira, o pobre vendedor está se debatendo contra o vento!

Só quem parece compreender a "dança" do rapaz é o Besouro, ele também, capaz de ver os elementais. O capoeirista afasta o amigo e, também sem uma noção precisa a respeito de com o que está lidando, protagoniza uma luta e tanto com o Exu! Naturalmente, não acerta um único golpe, e ainda consegue demolir metade da feira na tentativa...

Ao longo da trama aparecem ainda o orientador espiritual, sempre pronto a aconselhar Besouro; a bela Iansã, a fluida Oxum, o guerreiro Ogum, o nebuloso Ossaim... Todos com uma naturalidade impactante, envolvidos em seus respectivos meios e áreas de atuação, cada um contribuindo com uma dádiva para a formação do herói.

Lá pelas tantas, tem até espaço para legítimos fenômenos de "psicapoeira"... Mas não vamos estragar as surpresas. Se ficou curioso, vai lá, prestigiar essa bela produção do cinema nacional. No geral, um bom filme, daqueles que deixam uma impressão agradável no espectador. Recomendo!


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Idéias

Uma avaliação parcial da Mostra

Três dias e a Mostra Brasileira de Teatro Transcendental mostrou a que veio nessa sétima edição! O espetáculo Entre Deus e Mamon, do Teatro de Bonecos Riso de Deus, se apresenta desde sábado (15) no interior e nos terminais de ônibus da capital. Diversão e alegria garantidos para o público de todas as idades!

Na terça-feira, subiu ao palco principal a peça Valores: a cotação humana, de Brasília. Uma seqüência de monólogos mais ou menos interativos e com forte teor filosófico. A montagem apresenta altos e baixos. Apesar da boa contribuição que traz ao público, com uma proposta de repensar nossas ações diárias, a peça poderia tranqüilamente ser reduzida em mais de 20 minutos!

Ganharia em dinamismo e atratividade, sem perder o foco! Além disso, é preciso explorar mais recursos como luz, corpo e som, como forma de potencializar a força do texto.

Na quarta, foi a vez de O amor jamais te esquece, de São Paulo. Mais uma adaptação de romance épico, no caso, do médium André Luiz Ruiz, atribuído ao Espírito Lucius. Nada de novo no horizonte. A mesma velha transposição da literatura mediúnica para os palcos. Falta a experimentação, falta aproveitar melhor as possibilidades oferecidas pela linguagem teatral, bem diferentes daquelas que marcam o texto puramente literário. Como quase sempre ocorre nesse tipo de montagem, sobra explicação, falta criatividade cênica.

Ontem, por fim, a mais agradável supresa da Mostra, até aqui: Quem tem medo da morte?, dos baianos da Comunidade Arte e Paz. Sobre o espetáculo, vamos direto ao ponto. Compartilho com vocês uma breve resenha que escrevi:

Grandes, pequeninos, simples ou complexos, todos temos medos. Alguns deles são úteis. Ajudam a evitar o perigo, garantem nossa sobrevivência. O resto não passa de entulho. Coisas que a mente cria para se fechar. Coisas que a gente fia para se amarrar. E se há entre os medos um mais forte, esse é o medo da morte!

Quem não tem? Quem nunca sentiu? Quem nunca se viu angustiado pela perspectiva do fim? Talvez por isso mesmo não dê pra ficar alheio à humanidade exalada por
Quem tem medo da morte? Um texto profundo, que ganha dinamismo na direção bem conduzida de Edmundo Cezar. A cada cena, um novo olhar, a cada esquete uma forma nova de se libertar. Da cegueira, da angústia, das limitações... Da incerteza sobre o porvir, que nos impede de usufruir uma vida plena!

O tom escolhido é de provocação. Clichês sobre o aquém e o além são sucessivamente derrubados pelos três personagens que impulsionam a narrativa. Eles mesmos se revezam nas funções de condutores e vivenciadores da trama. Em conflitos bastante sugestivos sobre as influências invisíveis que nos cercam a cada passo da jornada.

Quem tem medo da morte? propõe à platéia um modo singular de perceber a morte. Sem dogmas, pudores ou receios. Com a espontaneidade de quem caminha sabendo aonde vai chegar. E entende que o amanhã reflete nossas escolhas. Que a morte é um novo princípio. E o nascimento, apenas um recomeço.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Idéias

A Arte na Libertação do Homem

Trazemos hoje para o blog uma contribuição e tanto para nossas discussões sobre Arte e Espiritualidade, assinada pela professora Márcia Fusaro, da Universidade Nove de Julho (SP).

A autora é doutoranda em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP, atua profissionalmente como tradutora e parece ter iniciado uma coluna sobre nossa temática central no site do Centro de Estudos Filosóficos Laboratório Evolutivo (Cefle).

Se ela foi além do primeiro artigo, não saberíamos precisar. O certo é que este que se lê abaixo nos chamou suficientemente a atenção para publicá-lo aqui.

Falar sobre arte é sempre uma redescoberta. Refiro-me à boa arte, aquela que toca o homem em sua essência, espelhando a centelha de beleza espiritual presente em cada um.

O bom artista conhece as facetas humanas melhor do que ninguém. Cada atitude, cada gesto, cada consagração e derrota humana é por ele captado e expressado em seu mais íntimo sentido. Mas ao assumir seu papel de revelador da alma do mundo, o artista investe no processo seu mais ousado vigor de "ver além", retratando na arte a emanação do ser, da essência espiritual. Exatamente por isso ele nem sempre é compreendido.

Os grandes artistas, verdadeiros magos da expressão, provam que a sensibilidade aliada ao talento torna possível "dizer o indizível", "alcançar o inalcançável". Espelho da própria busca do ser espiritual.

A arte também traz em si formas de meditação e de contemplação. É um refinamento do espírito e para o espírito. Arte é a manifestação de uma essência primeiro meditada pelo artista, depois expressada em uma forma estética, para então ser contemplada não apenas por seu próprio criador, mas por outros seres buscadores de suas próprias essências.

Quando digo arte, considero as diferentes formas de expressão artística humana, determinadas por uma estética específica, mas voltadas essencialmente à busca de uma transcendência.

Para estrear nossa coluna sobre arte e espiritualidade, ninguém melhor do que o poeta-místico inglês William Blake (1757-1827), um artista para quem a noção de espiritualidade era tão íntima quanto a própria arte.

Sua obra mais importante em prosa The Marriage of Heaven and Hell (O casamento do céu e do inferno) baseia-se nos escritos de Emanuel Swedenborg (1688-1772), outro grande intelectual e místico do século XVIII.

Para Blake, completamente incompreendido e tido por muitos como louco em sua época, o uso da imaginação em contraposição ao cientificismo cada vez mais exarcebado do século XVIII representou a luta artística de toda uma vida. Poeta, artista plástico e, acima de tudo, observador atento do mundo, Blake conseguiu com sua arte contrapor-se a seu tempo, rebelando-se contra o materialismo presente em seus dias. Levado por sua extrema ousadia de artista engajado, chega a declarar na carta ao amigo e intelectual Thomas Butts: "Que Deus nos guarde de ver com um só olho e de dormir o sono de Newton".

Evidentemente que as descobertas de Isaac Newton sobre a Física foram de extrema importância, mudando um quadro teórico que se estendia desde Aristóteles. Mas para o artista rebelde, William Blake, as descobertas da ciência, por mais brilhantes que fossem, não eram suficientes para explicar os processos da natureza e a alma humana, muito mais complexos do que o cientista é capaz de conceber.

Em sua ânsia de romper e de transcender os limites impostos por seu tempo, querendo manifestar-se como espírito livre que era, Blake tenta fazer "caber o infinito na palma de sua mão", e consegue:

Ver um mundo em um grão de areia
E o Paraíso em uma flor silvestre
Segurar o infinito na palma de sua mão
E a eternidade em uma hora

William Blake sabia como ninguém que somente a arte, com sua maior liberdade de expressão, é capaz de tornar possível a manifestação da tendência libertária do espírito. E soube mostrar isso da melhor forma que um artista pode fazê-lo: com sua própria arte.


Márcia C. F. Fusaro

domingo, 12 de julho de 2009

Idéias

De Michael Jackson à Arte Espírita

Por que Michael Jackson fez tanto sucesso? Uma excelente estratégia de marketing, dirão alguns. Uma fantástica visão de mercado, defenderão outros. Espírito altamente empreendedor, criativo e talentoso, argumentarão ainda.

Obviamente, tudo isso está nas raízes do fenômeno que foi o mais jovem dos Jackson Five. Sem levar em conta esses fatores, a compreensão sobre um case midiático e empresarial tão genuíno se torna capenga. Mas eu acrescentaria um outro: a verdade que Michael imprimia em cada trabalho.

Mídia, mercado, marketing, talento e criatividade também estavam a favor de Beatles, Elvis e Madonna, por exemplo. Mas nenhum deles conseguiu bater tantos recordes, certificados inclusive pelo Guinness Book, quanto o autor de Billie Jean:

1) Artista de maior sucesso e também 2) o mais bem pago de todos os tempos, no ramo do entretenimento; de quebra, 3) o primeiro nesse setor a ganhar mais de 100 milhões de dólares em um ano; 4) vocalista mais jovem a alcançar o topo da parada de singles americana, aos 11 anos, e também 5) o que passou o maior número de semanas no topo; 6) o primeiro a ingressar nesse ranking já em primeiro lugar e ainda 7) primeiro artista a vender mais de 100 milhões de álbuns fora dos EUA. Por fim, 8) clipe musical de maior sucesso na história, com Thriller.

Para chegar a isso, Michael traçou um caminho semelhante ao das outras grandes estrelas do show bizz. Mas foi além. Expôs, com rara autenticidade, um mundo obscuro, de monstros e zumbis, de inconstâncias e mutações, de fragilidade e insegurança. Um mundo que, de tão exótico, chegava a parecer apenas uma fantasia bem bolada. Mas que conseguia magnetizar milhões de pessoas em todo o mundo justamente por ser mais: era o próprio mundo interior dele que transparecia ao público! Conflitos, recalques, sombras e medos. Tudo ali, claro e cristalino, expresso com tanta verdade que se tornava arrebatador.

O Rei do Pop soube traduzir as fragilidades da própria alma numa obra grandiosa e multifacetada. Da declaração de amor ao ratinho e melhor amigo de infância Ben à seqüência vertiginosa de tranformações de Black or White, passando pela forma quebrada e descontínua de dançar, tudo refletia as revoluções internas da alma do artista.

E foi justamente por isso que trouxemos para cá essa reflexão. Porque este é um espaço voltado para as discussões sobre Arte e Espiritualidade. Defendemos o papel da Arte como caminho por excelência para o desabrochar da Espiritualidade. E acreditamos que ela seja a forma mais contagiante e expressiva de comunicação já inventada pelo homem!

Portanto, se queremos ver algum dia uma revolução nas Artes, uma mudança radical no panorama dominante de obras rasteiras e superficiais, é preciso ter em mente exemplos assim. De quem fez das limitações o caminho para a superação. De quem conseguiu imprimir na obra, com maestria, aquilo que é a mais autêntica substância artística: a própria alma!

Mesmo quando somos artistas engajados, social, política ou religiosamente, não é possível ignorar que a nossa alma é o grande filtro dos princípios que nos propomos a disseminar. Por mais "isento", "neutro" que se pretenda ser, sempre há uma boa dose de subjetividade no produto final. E a obra, espírita, marxista, condoreira ou niilista, será tão mais artística quanto melhor reconhecermos nossa contribuição, única e intransferível, para a expressão das idéias que abraçamos. Isso não é orgulho, soberba ou vaidade: é o reconhecimento de nosso papel como co-criadores, ativos e responsáveis, desse mundo fantástico que Deus criou!

Viva Michael! Viva a Arte que transforma vidas e às vidas que transformam o mundo!

sábado, 6 de junho de 2009

Idéias


O que há de espírita em Pensamento Sideral?

Trazemos hoje para o Espírito de Arte o resumo de debate realizado recentemente num grupo virtual sobre Música Espírita. O assunto foi a canção Pensamento Sideral, assinada pelos compositores Douglas Thá Júnior e André Luiz Dias, do Alma Sonora. Pelo menos no eixo Sul-Sudeste do Brasil, é hoje uma das músicas mais tocadas no movimento espírita. Para quem nunca ouviu, eis o clipe mais conhecido:



A canção é, sem dúvida, a obra mais premiada entre os trabalhos musicais notoriamente feitos sob a influência do espiritismo. Acumula prêmios de melhor música e melhor arranjo em uma série de festivais nacionais, como já falamos antes. Mas, afinal, o que haveria mesmo de espírita nessa badalada composição?

Antes de tudo, é preciso lembrar que a música se compõe essencialmente de três elementos: melodia, harmonia e ritmo. E que os estilos musicais se definem pela forma como essas variáveis se relacionam. Naturalmente, não há uma "música espírita" no sentido propriamente musical da expressão. Basta ouvir aleatoriamente duas coletâneas espíritas, a exemplo dos CDs Cancioneiro Espírita, para perceber que há muito pouco em comum entre as milhares de canções compostas e cantadas pelos adeptos do espiritismo.

Se há algo pelo menos parecido, esse algo está nas letras das músicas. Elas também se apresentam numa infinidade de nuances. Mas uma coisa, praticamente todas têm em comum: a influência da proposta espírita de compreensão da realidade. Podem falar de Jesus, amor e caridade, como a maioria, ou de luta, dor, desigualdades dociais, sexo e drogas, como se vê mais recentemente. Via de regra, é fácil notar a inspiração do ideal espírita no texto.

Pois bem! É justamente esse o mote do debate a que nos referimos no início deste artigo. O que há de efetivamente espírita na letra de Pensamento Sideral? Eis a síntese das idéias apresentadas. Elas aparecem na forma de diálogo: um debatedor argumenta e, logo a seguir, o outro comenta sobre o mesmo assunto!

Quero ser um anjo,
Quero ser imortal

Podemos entender que o "querer ser um anjo" é o alcançar o estado de perfeição através da evolução sucessiva, ideia espírita. Porém, isso não encontra ressonância no resto da canção, não percebemos nenhuma passagem que sugira um contexto de evolução, de um crescimento. Apenas vejo um desejo de ser coisas e estar em condições etéreas, libertas e, no meu entendimento, bastante vagas.

Na Doutrina Espírita sabemos que todos somos imortais, independente de nosso desejo ou não. Claro, podemos fazer uma aproximações poética com o conceito de se descobrir imortal, se enxergar como imortal, de agir como imortal. Mas é uma interpretação que não vai da música em si.

A coerência com a proposta espírita, desde os primeiros versos, é impecável. Obviamente, sabemos o que é um "Anjo":

"
Os seres que chamamos anjos, arcanjos, serafins formam uma categoria especial, de natureza diferente da dos outros Espíritos?
— Não; são Espíritos puros: estão no mais alto grau da escala e reúnem em si todas as perfeições
."

Quanto ao desejo de ser imortal: esse verso traduz num anseio íntimo do autor a essência da proposta espírita, que é a percepção do homem como ser imortal. Em lugar de preconizar que nós o somos, o eu-lírico revela sua própria ânsia de atingir essa condição.
Tira o postulado espírita da condição de Lei, imposta de fora para dentro, para colocá-lo como expressão da vontade profunda do Espírito encarnado no corpo terreno.

Quero viajar na velocidade da luz
Ir aonde o pensamento me conduz

Outro dia me argumentaram que "pensamento sideral' seria sinônimo de "espírito", porque o espírito é um pensamento e é livre pelo espaço em geral. E eu me questionei: a conclusão dessa frase é "quero ser um espírito"? Como poderia ser diferente, como poderia eu não ser um espírito? Claro, podemos ir a uma questão filosófica do que seria o espírito, mas que a música não desenvolve. Os demais versos são a continuidade de desejos por liberdade, por condições como "viajar na velocidade da luz", de ir onde o pensamento conduzir, mas onde não vejo um objetivo, apenas um desejo, um anseio vago por liberdade.

Quanto à expressão "Pensamento Sideral":

"
O Espírito é, se quiserdes, uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea", dirá O Livro dos Espíritos, acrescentando que "Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também o está, pois é a alma que pensa" e que "Os Espíritos puros habitam determinados mundos, mas não estão confinados a eles como os homens a Terra; eles podem, melhor que os outros, estar em toda parte". O Espiritismo não fala nada sobre a expressão "pensamento sideral". Mas oferece toda a fundamentação teórica para o que ela expressa dentro do contexto da música.

O Espírito Puro, tão liberto quanto possível da matéria, é uma Essência que é mais do Universo (ou, pelo latim, Sideral) do que de qualquer mundo específico. E o que melhor do que a figura do "Pensamento" para expressar essa essência livre de barreiras que transita pelo infinito?

"Pensamento Sideral" é uma forma poética e bem fundamentada n'O Livro dos Espíritos de traduzir o conceito de Espírito Puro.

Prosseguimos então com ser um pensamento sideral, viajar na velocidade e ir até onde o pensamento conduz. Ora, quem pode viajar à velocidade da luz, a barreira da rapidez admita pelo conhecimento humano, senão os Espíritos altamente depurados? E como podemos entrever essa habilidade senão através dos sonhos, da imaginação, do pensamento?

Diria, enfim, que todo o refrão da música poderia ser sintetizado na frase: quero ser um Espírito Puro.


Me leva até onde o céu está
Nem dor, nem medo não
Na luz que extermina a escuridão
Na paz, na voz que me faz ressoar

Na sequência, vemos o sentimento de passividade, de se deixar conduzir por um algo que te leva até o céu, onde supostamente não há dor nem medo. Nós espíritas não cremos num céu como crêem nossos irmão evangélicos e católicos, então eu suponho que a música fala do céu como elemento poético, como a imensidão da altura sobre nós, onde repousam as nuvens, e de onde recebemos a luz solar. Porém, num contexto estritamente espírita, não vejo nenhum sentido para esse céu não ter dor nem medo, até porque não vemos motivo algum para isso na canção; é apenas um desejo, uma vontade de não sentir dor nem medo, mas sem nenhuma razão para que o céu possa proporcionar isso.

Aqui cabe uma reflexão: o próprio ato de querer, de desejar, é, em si, um ato, uma ação, ainda que interior. Podemos até agir sem querer, mas nada como a vontade firme e decidida para fundamentar uma ação eficiente e proveitosa. E será precisamente o impulso íntimo de crescer que vai levar o Espírito à condição de Perfeição, com todas as qualidades que lhe são inerentes.

Portanto, acho que a letra passa longe de transmitir uma sensação geral de passividade, ainda que o verso "Me leva até onde o céu está" possa, isoladamente, dar impressão.

A respeito dele, inclusive, e da estrofe que se segue, é notável mais uma vez a coerência com a perspectiva espírita. Eis o que traz o Livros dos Espíritos sobre o conceito de "
céu":

"
É o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores onde os Espíritos desfrutam de todas as suas qualidades sem os tormentos da vida material nem as angústias próprias à inferioridade."

Noutras palavras, o céu, onde quer que ele esteja, ou como quer que queiramos chamá-lo, não tem dor nem medo, tal qual o eu lírico expressa em Pensamento Sideral.


Em seguida, falamos da "luz que extermina a escuridão", numa metáfora desgastada pelo mau uso, de desenhos animados japoneses a canções românticas onde a "luz do amor" vence a "escuridão da solidão". Claro que essa canção não tem culpa dos maus usos. Porém, diante da ausência de qualquer definição mais específica, a metáfora empobrecida pelo uso continua pobre.

Sim, a seguir, a velha mas recorrente metáfora da codificação espírita sobre luz e escuridão. Cito apenas dois exemplos do Livros dos Espíritos:

"
...a luz mata as trevas e a caridade mata o egoísmo", "Ai dos que fecham os olhos à luz! Preparam para si mesmos longos séculos de trevas e decepções."

Andar sem precisar de chão
Voar, nem asas, nem balão
Liberdade, meu porto final
A paz, a voz que me faz ressoar

A próxima estrofe segue a mesma linha, continuando a buscar o voar, a liberdade física dos espaços, uma paz sem âncora em nenhum conceito, uma voz que ressoa pelo eu lírico, embora não haja nenhuma menção de que voz essa, de onde ela vem, o que ela diz. O resumo que eu faço é: como espírita, ela não me traz nada - ou me traz o nada.

A conclusão da estrofe é quase uma transcrição de trecho do famoso prefácio do Evangelho segundo o Espiritismo. Ou não há concordância entre

"Na voz que me faz ressoar" e "
As grandes vozes do Céu ressoam como sons de trombetas, e os cânticos dos anjos se lhes associam"?

Por fim: "Andar sem precisar de chão / Voar, nem asas, nem balão / Liberdade, meu porto final". Ainda aqui, referências à condição daquele que se libertou da matéria. Simples, talvez, diante de tudo aquilo que caracteriza a Perfeição Espiritual. Mas aquelas que o eu lírico entrevê e pelas quais anseia naquele moment
o. A libertação, vale destacar, de tudo o que limita e condiciona a plenitude espiritual é mais uma característica dEles, ainda de acordo com o Livro dos Espíritos:

Passaram por todos os graus da escala e se libertaram de todas as impurezas da matéria. Tendo atingido o mais elevado grau de perfeição de que é capaz a criatura, não têm mais que sofrer provas nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, a vida é para eles eterna e a desfrutam no seio de Deus.

Ufa! E agora, o que pensam sobre o tema?! Queremos opiniões!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Idéias

Por uma Arte Nascente...

Arte espírita até bem pouco tempo atrás era sinônimo de doutrinação e simploriedade, salvo algumas honrosas exceções. Era um ou outro grupo teatral, um ou outro compositor capazes de produzir uma arte ao mesmo tempo antenada com o mundo de hoje e inspirada numa vivência espírita. Mais raro ainda era encontrar quem se dedicasse à produção de algo arrojado, capaz de entrar no mercado e disputar espaço de igual pra igual com a "arte secular".

O DVD Arte Nascente do GAN (GO), lançado em 2008, trouxe uma reviravolta nesse panorama. Não foi o primeiro trabalho musical espírita lançado em DVD (vide o COMEBH 25 Anos), nem o primeiro a utilizar uma linguagem contemporânea (vide Moacyr Camargo, Flávio Fonseca, Alma Sonora e o próprio GAN). Mas talvez tenha sido pioneiro em reunir as duas características, essenciais para alavancar a Arte Espírita no panorama nacional.

O DVD da Comebh, que ainda não tivemos oportunidade de assistir na íntegra, parece ser uma coletânea do cancioneiro espírita mineiro. As canções são muito bem executadas e arranjadas, sem dúvida. E o resultado é um trabalho de qualidade sonora e visual, a ser apreciado ainda pelos espíritas de todo o mundo. Mas talvez essa seja a grande diferença conceitual em relação ao Arte Nascente: o público-alvo. As músicas do COMEBH 25 Anos a que assistimos dificilmente conquistariam um público não-espírita, por trazerem muito forte a marca do hino religioso. Letras de adoração e louvor, versos com inversões para rimar... Melodias que lembram de pronto o hinário cristão. Um repertório que até poderia ressoar também num público carismático, católico ou evangélico. Mas que tem pouca chance de arrebatar a grande massa de pessoas sem engajamento religioso...

O que o GAN conseguiu fazer foi justamente transpor essa barreira. O repertório, mesmo quando fala de Jesus, passa longe da tradicional pregação religiosa. As letras são jovens, sem floreios e lembram antes de tudo o estilo dos compositores do Pop Rock brasileiro. A exceção, talvez seja o clássico Nova Luz, que não abre mão do sermão evangélico nem da sonoridade de hino. Mas acaba "redimido" pelo arranjo magistral composto e executado pelo maestro Paulo Rowlands com um quarteto de cordas. No geral, o repertório parece até despretensioso, mas traz um conteúdo forte, humano e universal, sem deixar de ser espírita.

A musicalidade envolve. E direciona o público segundo um plano muito bem traçado. O show começa a la anos 70, com Alegre Evolução e aquela galera vestida de Nos Embalos de Sábado à Noite. A seguir Busca mantém o clima disco, que vai se dispersando com a balada de Eu Venci e o rock de Subindo até Você. Aí chega o momento mais intimista, com Sou seu Anjo, Tudo É Amor, Reparação e a apoteose de Nova Luz, que termina soando como alguma peça de Mozart.

Do meio pro fim, o DVD é predominantemente pra cima, com espaço para o rock, o pop e o reggae. Provando, a cada faixa, que é possível sim fazer uma Arte Espírita envolvente, que fale uma linguagem atual e leve o espiritismo sem pregação. Sem dúvida alguma, um salto adiante na consolidação dessa arte ainda nascente que os espíritas estamos aprendendo a fazer!

Romário Fernandes

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Idéias

O Universal e o Eterno na Arte Espírita

Fizemos algumas semanas atrás uma observação filosófica em defesa de um certo “humanismo transcendental". Defendíamos a possibilidade do grandioso na arte que é criada pelo próprio Espírito do espírita ou de quem quer que seja. Isto é, defendíamos que uma arte divina não necessariamente deve ser mediúnica. Ou ainda, que o animismo do médium na obra de arte não é, necessariamente, ruído de comunicação.

Nossa! Quanto palavreado confuso! Mas a coisa é simples... se não simples, fabulosa:

Ficamos encantados com as obras mediúnicas e conferimos beleza e verdade a elas pelo simples fato de serem mediúnicas. É uma tendência quase natural para os devotos do espiritismo esse posicionamento. Aliás, o devotamento tem esse quê de gratuito. O sagrado (é sagrado tudo aquilo que na Terra se reveste de Além) sempre mereceu de nós uma postura acrítica e cegamente respeitosa.

Entretanto, quando Allan Kardec surgiu, duvidando do maravilhoso numa pilhéria que ficou sagrada, desafiando as mesas girantes, ele começou uma jornada que culminou numaaproximação do humano com o divino e do divino com o humano numa conclusão muito simples: todos os Espíritos que habitam o espaço invisível são da mesma natureza que os que estão enredados na carne. Por isso nem todos são puros, mas todos poderão vir a ser. Todos são todos! São as potencialidades, então, que tornam todos os seres iguais em direito, em beleza e em verdade.

Com essa simples conclusão, Kardec encontra a chave que une a Terra ao Céu! Um processo tão fecundo que o deixou admirado com as possibilidades de uma proposta artística baseada na idéia, que deixasse se conduzir por ela.

A arte que prima por ser espiritual e catequética, isto é, doutrinária, é uma arte medieval, onde a única importância reside na revelação da palavra de Deus, sempre para além do que é material. A arte que se restringe sempre ao material, ao presente, ao mortal, é uma arte secular que passa na medida em que passam seus autores. A arte espírita, Kardec havia previsto que ela ultrapassaria todas as outras, porque síntese dialética delas. O elemento mediúnico, ou ainda, o reencarnacionista, ou numa palavra, aquele elemento que costura repetidamente as muitas vidas do universo, a arte que se utilizasse dele ganharia o que toda boa arte quer: o universal e o eterno.

Como fazer isso? Como a mediunidade ou mesmo a reencarnação contribuem para essa questão?

Elas são os modelos melhores para a fabricação dessa arte – da forma como o Espiritismo as encara.

Não basta o Espírito imaterial, deve haver o Espírito intermediário na carne para haver a obra transcrita, pintada, falada, o que for. Não basta a vida na carne, é preciso a vida fora dela, numa comunicação constante entre as vidas para que ambas possam se enriquecer em um progressão infinita.

A mediunidade nunca é um monólogo transcendental, ela é um diálogo entre o que é transcendente e o que é contingente, o que sempre foi com aquilo que ainda é. A reencarnação, por sua vez, promove a solidariedade, dentro de um mesmo indivíduo, entre o passado, o presente, e as possibilidades de futuro. Somos, assim, médiuns e reecarnantes, uma obra de arte criada por Deus, que dialoga, caminha, vive e constrói coletivamente seus próprios caminhos, sua própria Arte.

A Arte Espírita, portanto, vai além do que costumamos pensar que ela é!

Allan Denizard

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Idéias

O Grande Dilema da Arte Espírita

O maior dilema que os espíritas têm de enfrentar é o da liberdade individual. E, ainda mais que os espíritas, os espíritas artistas. Se eu considero essa doutrina tão santa e verdadeira, como produzir uma obra que venha do meu coração, imperfeito e cheio de mentira, que não venha a macular o que é espírita?

Não foi a toa que Clarice Lispector indagou: “Oh Deus, por que me escolheste para ser espírita e para compreender e saber?"

Depois de se ser salvo por qualquer doutrina - e isso vale para qualquer uma! - torna-se pesado carregar as verdades que te salvaram. Carregar e respeitar como quem reza um terço, como quem deixa a Bíblia exposta num mostradouro na sala, como quem paga promessa. É penoso ter de passar pela igreja e fazer o sinal da cruz em agradecimento perpétuo por alguém que me salvou com sangue, ainda que ele tenha dito que tudo seria mais leve se o seguisse.

Porque se é indiscutivelmente bom ser espírita, me faz uma falta danada ser eu. Uma falta que, de tanta saudade, pesa.

É caridade, e caridade é dever absoluto, divulgar as leis morais reveladas pelo mundo. É dever cristão se apagar em trabalho para escrever em todos os cantos as letras de Jesus. É pecado de traição deixar o espiritismo apenas velado nos meus versos por querer me mostrar mais. Pois é pecado ser egoísta e, assim, ser eu.

Mas é estranho que se faça duelo entre mim e Deus, se Dele sou semelhante, se Jesus pediu para acreditar em minhas forças de ser deus também, se o nosso Jesus espírita era tanto mais deus quanto mais Jesus ele era, porque ele e o Pai eram um.

Deixo registrado aqui meu estranhamento por entender ser a revelação de si mesmo uma forma, talvez a melhor que temos atualmente, de revelar Deus ao mundo. Antes eram as escrituras sagradas, depois foi a própria natureza cientificamente explorada, agora o íntimo revelado.

A mediunidade tem essa força simbólica de nos dizer que uma realidade superior em nós mesmos presente se identifica com os grandes Espíritos que correm nos espaços. Pensamos muito que são eles apenas que nos guiam, mas - me crucificarão por esse pensamento egoísta - que seria do Espírito sem a identificação com os fluidos do médium?

Então, por Deus!, nós temos parte na mediunidade? Temos todos, mais ou menos, parte no que sempre nos foi divino e sagrado? Então, temos em nós matéria-prima para gerar toda poesia e toda dança?

É o velho mal do ser humano que o limita na mesma medida que o expande. Não somos livres para escolhermos ser infelizes, nem há caminho que não chegue a Deus. Não vejo porque falar de coisas que venham escavadas da alma seja menos espírita do que as que são coletadas parnasianamente nas obras básicas. Tudo é espírito, enfim!

Allan Denizard

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Idéias

Uma breve experiência musical espírita

Sempre gostei de fazer experiências inusitadas. Bolo fofo no leite com Nescau, molho tártaro com refrigerante, areia com sal e açúcar. Algumas eram de comer, outras nem tanto... Depois de velho, ainda coloco o bolo dentro do leite, mas as experiências mais bacanas mesmo são no campo da comunicação. Nada como tirar o rótulo do produto e observar os efeitos inusitados que isso causa...

Foi o que aconteceu dia desses, quando eu estava numa festa com vários amigos. Casa bacana, piscina, sol a pino. Quase todo mundo lá muito chegado a um goró. Nada como tomar uma dentro d'água, jogando carta e conversa fora. Fora o mela-bico, que não me desce, pra mim também estava tudo na paz. A música do lado de fora a todo vapor, variando de Madonna a pagode pra animar a festa.

Foi quando resolvi fazer uma experiência. Peguei um CD de música espírita e botei pra rodar. Era hora do almoço, todo mundo concentrado no churras, nem repararam na mudança. É claro que eu precisava ir ao som o tempo todo, selecionar qual faixa deveria tocar a cada momento, pra coisa não sair pela culatra. O certo é que a certa altura a bebida já tinha ido pra escanteio, e aí veio o primeiro comentário: "Nossa, que coisa maravilhosa isso aqui! Cenário lindo, vento na cara, música agradável...". Naturalmente, ninguém tinha jamais ouvido aquelas músicas. Ficavam só batendo o dedinho ou aproveitando o som pra digerir melhor o rango.

À medida que acabavam as faixas animadas, eu ia gradualmente deixando virem as mais tranqüilas, até um certo limite, pra não dar nas oiça... E as pessoas iam perguntando: "que CD é esse? Bacana essa música..." Ao que eu respondia: "É Alma Sonora, um grupo lá de Curitiba, infelizmente não é muito conhecido...". "Legal, muito boa a música", era a resposta mais comum.

O disco deve ter tocado por uns 40 minutos, até esgotarem as faixas que eu considerava adequadas para aquele público naquele momento. Foi tempo suficiente pra deixar saudade e reclamações quando a música parou. Mesmo assim, optei por colocar outro CD, "normal" mesmo. Já havia explorado tudo o que aquele fantástico exemplar de música espírita tinha a oferecer. Já estava feliz o suficiente por ver, mais uma vez, o que a essência sem rótulo é capaz de fazer. Por ver que a Arte Espírita pode chegar e fazer a diferença em qualquer lugar. Desde que seja produto da sensibilidade, e não da vontade de doutrinar do artista! E que conte com o empurrãozinho de algum aventureiro experimentador, um pouco maluco, mas sensível aos limites que o ambiente impõe...

Romário Fernandes

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Idéias

Mensagem de Natal

Dia de festa, paz e busca espiritual para boa parte do mundo. Pelo menos hoje, cai a violência, abranda o ódio e diminui a dor. Quem dera que isso tudo não fosse só hoje. Que a data e todos os outros símbolos do nascimento da Esperança fossem mesmo apenas representações. Da determinação, da força, da coragem e do desejo sincero de se aprimorar mais e mais a cada dia. Quem dera que cada Natal fosse apenas um marco. Para nos reunirmos, sentados à mesa de um banquete espiritual, a compartilhar os frutos de um ano inteiro de luta! Talvez fosse assim que o grande homenageado do dia preferisse. Talvez assim só fizéssemos jus ao legado que ele nos deixou.
Gostaríamos de deixar aqui hoje uma canção fantástica do compositor mineiro James Wulisses Marotta, intitulada Noite Igual. Ela já foi gravada, pelo menos, pelos grupos espíritas Arte Nascente (GO) e Meu Cantar (MG) e pela Marielza Tiscate (RJ). Mas, infelizmente, não conseguimos localizar nenhum vídeo de qualidade da canção. Eis por que optamos por trazer uma bela faixa do CD Chico Xavier em sua casa ...na presença do Natal. Trata-se da mensagem Oração do Natal, atribuída ao Espírito Meimei, psicografada e narrada pelo próprio médium!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Idéias

O Espiritismo na Cultura Popular IV

Todo aquele que não vê uma ruptura entre o espiritismo à época de Kardec, francês, e o espiritismo brasileiro, de Bezerra e de Chico, ou é novo por essas bandas, ou se ateve à mera adesão dos princípios sem muita pesquisa do que foi o fenômeno Espiritismo no mundo.

A literatura dos primórdios era de jornal de estudos, o que talvez valesse aos periódicos científicos que temos hoje, com a ressalva de a linguagem ser bem menos seca. Ganhava em divulgação o que perdia em rigorosidade metódica. Kardec tinha sim rigor e critério, mas nada comparado à obsessão dos fabricadores de ciência. Conseguia assim mais alcance às massas, utilizando uma linguagem e um raciocínio menos hermético. Preocupava-se com didática, coisa rara nesses textos técnicos.

Houve uma grande repercussão quando foi lançada uma biografia de Joana D’Arc, pretensamente escrita por ela mesma, em espírito, psicografada pela senhorita Dufaux de catorze anos. Algumas poesias de inspiração espírita, alguns romances com toques de espiritismo, às vezes guiados pela moral que o espiritismo revelava, mas nunca os trabalhos de fôlego que tivemos aqui no Brasil.

Não queremos colocar em questão aqui a qualidade dos romances mediúnicos, mas o fato incontestável de nosso espiritismo ter se firmado mais em narrativas do plano espiritual que na observação criteriosa de fenômenos ou na análise das mensagens dos espíritos.

Ganhamos uma imensa obra literária em detrimento de uma densa obra científica. Se isso foi ruim? Deixemos Kardec falar:

“Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de comparações muito materiais e, talvez mesmo, um tanto forçadas, que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra. (...) É a tais comparações que a doutrina espírita deve, em grande parte, ter sido facilmente compreendida, mesmo pelas mais vulgares inteligências, ao passo que se eu tivesse ficado nas abstrações da filosofia metafísica, ainda hoje ela não teria sido partilhada senão de algumas inteligências de escol. Ora, desde o princípio, importava que ela fosse aceita pelas massas, porque a opinião das massas exerce uma pressão que acaba fazendo lei e triunfando das oposições mais tenazes. Eis porque me esforcei em simplificá-la e torná-la clara, a fim de pô-la ao alcance de todos, com o risco de fazê-la contestada por certa gente quanto ao título de filosofia, por que não é bastante abstrata e saiu do nevoeiro da metafísica clássica.” (Dezembro de 1864 em discurso proferido na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas por ocasião da Comemoração dos Mortos.)

- Mas, isso enviesa a verdade! Dirão as inteligências de escol...

“Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. Que homem se pode vangloriar de possuí-la integral, quando o âmbito dos conhecimentos incessantemente se alarga e todos os dias se retificam as idéias? (...) Se Deus houvera feito da posse da verdade absoluta condição expressa da felicidade futura, teria proferido uma sentença de proscrição geral, ao passo que a caridade, mesmo na sua mais ampla acepção, podem todos praticá-la.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Fora da caridade não há salvação”)

- Meu Deus! Que blog profano! Prestam culto ao irracional, traindo a nossa tradição de Luzes... Não citamos aqui como “palavra da salvação”. Resgatamos Kardec para dialogar com ele. E, enquanto os espíritos fortes se estremecem com essa humilhação da razão, mostramos aos artistas brechas na nossa doutrina por onde novas sensibilidades podem surgir.

Allan Denizard

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Idéias

O Espiritismo na Cultura Popular III

Lembra do último artigo, quando prometemos tratar dos significados de um dogma cientificamente impossível, mas facilmente assimilado pela cultura popular? Eis que abordamos agora a famosa Virgindade de Maria. Não queremos defender a veracidade do fenômeno, mas sim captar o que os ecos desse discurso têm a nos oferecer.

O primeiro fato que devemos tomar consciência é que para os judeus a virgindade perpétua era motivo de escândalo, motivo de desprezo. A mulher, no pensamento agrário e totalizador desse povo, tinha de ser como uma boa terra: fértil. Ora, a descendência de Abraão deveria povoar o mundo.

Não era um valor de virtude de autocontrole a manutenção da virgindade, como o era para os estóicos. Tão pouco era um relacionamento sacro-carnal entre as virgens da terra e os deuses do céu, algo como as vestais. A virgindade era um valor a ser ultrapassado por um ritual bem específico daquela sociedade. A infertilidade era mal vista. Vide o pesar de Sara por não gerar filhos ao pai Abraão, vide a reclusão que era imposta a mulher em seu período menstrual nessa cultura por ser este um período infértil.

A virgindade de Maria, portanto, antes de ter representado um repúdio ao sexo, representou uma condição humilhante de Maria. Jesus nasceu pobre e de uma mulher virgem.

Mas, a virgindade dela não tinha um valor em si. Era uma virgindade a serviço constante de Deus. Uma condição humilhante a serviço de Deus, bem conforme um discurso de resignação. Sendo que, do seio da humilhação, Deus trazia o salvador daquele mundo. Não tirou o messias de uma seita privilegiada, mas dos maltratados da terra.

O segundo fato é o caráter surpreendente que representa a virgindade. Esperava-se que o messias viesse de um casal que tivesse passado pelos ritos sociais. Maria é surpreendida grávida sem nunca ter conhecido varão. Nesse ponto o discurso da virgindade nos fala das manifestações de Deus na vida humana, inesperadas e, porque não dizer, ilegais.

O mais duro obstáculo que encontramos na ciência oficial é a sua impossibilidade de reconhecer o que não pode conceber na sua perspectiva de laboratório, quando Deus se manifesta além de todo condicionamento experimental. A vida pulsa de surpresas.

Um terceiro fato: o louvor à onipotência. Se de uma virgem é impossível nascer criança, derruba Deus as concepções humanas e lança sombra sobre o ventre de Maria, fazendo ser o que não se acreditava que pudesse vir a ser.

Por último, nessa mensagem milenar da virgindade, dorme a mais sublime mensagem de mediunidade. A mediunidade é assim como a virgindade de Maria. Eurípedes Barsanulfo, conhecido vulto do espiritismo, grande médium e divulgador da doutrina no interior de Minas Gerais, se admirou quando viu um sertanejo pobre, virgem(!) de qualquer conhecimento, proferir uma palestra com as mais belas reflexões sobre a doutrina espírita – falava mediunicamente!

Contrariando aqueles que acreditam e lutam por uma sociedade construída apenas pelo esforço humano, o discurso da virgindade vem trazendo uma verdade que há coisas no mundo que vieram direta e gratuitamente de Deus. O amor incondicional, a misericórdia, a piedade, são todos eles palavras do caderno divino que nos dá esse tom virginal.

Mas, afinal de contas, por que falar de Maria num blog sobre arte espírita? Faz parte de nossa promessa de pensar sobre o que poderia ser uma arte espírita nordestina. Faz parte de tentar compreender esse movimento tão singular que é o Espiritismo Brasileiro, com cores tão nossas.

Antes de sermos uma corrupção do que era a nobreza espírita francesa, talvez tenhamos um outro discurso que enriqueça ainda mais o espiritismo pro mundo. Falaremos disso!

Allan Denizard

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Idéias

O Espiritismo na Cultura Popular II

Que é essa mulher que aparece sempre nos ambientes de reconciliação entre as pessoas sofridas, pecadoras e Deus?

Tida como mãe da Igreja e divina intercessora, Maria é constantemente abordada na arte nordestina como elemento feminino extremamente acolhedor para os aflitos das histórias.

Em Hoje é dia de Maria, seriado apresentado pela Rede Globo, em sua primeira jornada, Maria (nome comum em nosso interior) não só aparece como a personagem pequenina, que logo é submetida a difícil dor diabólica de crescer, mas também como um ente luminoso e coroado que a estimula a seguir seu caminho de dor. Mas, Maria não é só resignação, senão coragem de carregar um sonho que valeria desafiar constantemente o diabo para sua consecução.

Em outra obra de arte, a peça O Auto da Compadecida, a Mãe Santíssima surge ao final intercedendo a favor dos recém-finados que estavam ali em frente a Jesus-juiz, num discurso de compaixão difícil de não dobrar o coração de qualquer justiça. Um convite à misericórdia.

Numa obra clássica de Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, encontramos mais de dez poemas atribuídos a diferentes Espíritos de poetas mortos em veneração a Maria, mãe de Jesus.

Colocada em questão por muitos críticos, a obra venceu o tempo como aquela que seria uma doce prova da permanência da poesia após a morte, ou o grande pastiche que, apesar de todo escárnio, poderia ter levado Chico a uma cadeira da Academia de Letras.

Os críticos mais espíritas, e menos afeitos a Maria, poderiam contrapor que as poesias receberam um efeito anímico de Chico. Um efeito anímico que tenha preenchido todo o conteúdo do poema? Imaginemos que sim. A possibilidade de lançar essa hipótese aparece no pescoço do médium, com seu indefectível escapulário.

Onde mais? Pelas mãos de outra grande médium brasileira, Ivone do Amaral Pereira, surgem notícias do além de que há Servos de Maria responsáveis pelo resgate das almas suicidas num vale de sombras.

Trouxemos aqui alguns exemplos da grande presença, para não dizer onipresença, dessa entidade no que se costumou chamar de imaginário popular. A literatura espírita vem trazendo uma possibilidade de ver nessa presença mais do que o produto de um imaginário. Não seriam as manifestações artísticas do povo a representação sensível da intuição de uma realidade?

Ah! Nós espíritas só acreditamos naquilo que pode ser exposto de forma racional, porque a vida é feita de letras de filosofia.

Não! A vida não é feita de letras de filosofia. A filosofia é, de fato, um bom instrumento para traduzirmos a vida para a razão. Só que há muito mais vida do que nossa razão abarca. E nosso espírito tem sede desse tudo que falta. Alavancas se desprendem da gente a nos impulsionar mais rápido para essas águas de vida. A arte parece ser uma delas.

Se esse discurso não lhes convence da função da arte como representante da vida, analisaremos em uma próxima postagem o quanto um dogma cientificamente impossível, mas facilmente assimilado pela cultura popular e versado por cordéis, pode ser filosoficamente intrigante e encantadoramente profundo.

Allan Denizard