quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Idéias

O Espiritismo na Cultura Popular IV

Todo aquele que não vê uma ruptura entre o espiritismo à época de Kardec, francês, e o espiritismo brasileiro, de Bezerra e de Chico, ou é novo por essas bandas, ou se ateve à mera adesão dos princípios sem muita pesquisa do que foi o fenômeno Espiritismo no mundo.

A literatura dos primórdios era de jornal de estudos, o que talvez valesse aos periódicos científicos que temos hoje, com a ressalva de a linguagem ser bem menos seca. Ganhava em divulgação o que perdia em rigorosidade metódica. Kardec tinha sim rigor e critério, mas nada comparado à obsessão dos fabricadores de ciência. Conseguia assim mais alcance às massas, utilizando uma linguagem e um raciocínio menos hermético. Preocupava-se com didática, coisa rara nesses textos técnicos.

Houve uma grande repercussão quando foi lançada uma biografia de Joana D’Arc, pretensamente escrita por ela mesma, em espírito, psicografada pela senhorita Dufaux de catorze anos. Algumas poesias de inspiração espírita, alguns romances com toques de espiritismo, às vezes guiados pela moral que o espiritismo revelava, mas nunca os trabalhos de fôlego que tivemos aqui no Brasil.

Não queremos colocar em questão aqui a qualidade dos romances mediúnicos, mas o fato incontestável de nosso espiritismo ter se firmado mais em narrativas do plano espiritual que na observação criteriosa de fenômenos ou na análise das mensagens dos espíritos.

Ganhamos uma imensa obra literária em detrimento de uma densa obra científica. Se isso foi ruim? Deixemos Kardec falar:

“Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de comparações muito materiais e, talvez mesmo, um tanto forçadas, que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra. (...) É a tais comparações que a doutrina espírita deve, em grande parte, ter sido facilmente compreendida, mesmo pelas mais vulgares inteligências, ao passo que se eu tivesse ficado nas abstrações da filosofia metafísica, ainda hoje ela não teria sido partilhada senão de algumas inteligências de escol. Ora, desde o princípio, importava que ela fosse aceita pelas massas, porque a opinião das massas exerce uma pressão que acaba fazendo lei e triunfando das oposições mais tenazes. Eis porque me esforcei em simplificá-la e torná-la clara, a fim de pô-la ao alcance de todos, com o risco de fazê-la contestada por certa gente quanto ao título de filosofia, por que não é bastante abstrata e saiu do nevoeiro da metafísica clássica.” (Dezembro de 1864 em discurso proferido na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas por ocasião da Comemoração dos Mortos.)

- Mas, isso enviesa a verdade! Dirão as inteligências de escol...

“Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. Que homem se pode vangloriar de possuí-la integral, quando o âmbito dos conhecimentos incessantemente se alarga e todos os dias se retificam as idéias? (...) Se Deus houvera feito da posse da verdade absoluta condição expressa da felicidade futura, teria proferido uma sentença de proscrição geral, ao passo que a caridade, mesmo na sua mais ampla acepção, podem todos praticá-la.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Fora da caridade não há salvação”)

- Meu Deus! Que blog profano! Prestam culto ao irracional, traindo a nossa tradição de Luzes... Não citamos aqui como “palavra da salvação”. Resgatamos Kardec para dialogar com ele. E, enquanto os espíritos fortes se estremecem com essa humilhação da razão, mostramos aos artistas brechas na nossa doutrina por onde novas sensibilidades podem surgir.

Allan Denizard

Um comentário:

Flávio Mussa Tavares disse...

Caro Romário, essa inserção sua foi formidável e propõe a todos nós um culto à velha humildade, virtude tão esquecida do nosso gênero humano.